
Chego para você e afirmo com toda a convicção que um elefante cor-de-rosa está seguindo-me por toda a parte ou que o apresentador do telejornal saiu de dentro da TV, sentou-se em meu sofá e repassou-me as notícias enquanto tomava um cafezinho, servido por mim, você acreditaria? Se você tivesse algum poder sobre mim, talvez você me internasse numa casa de repouso ou marcaria uma consulta urgente no psiquiatra.
Mas quando alguém fala para você que Jesus (aquele da Bíblia) está presente durante uma reunião qualquer de cristãos devotos, que está o vendo adentrar no recinto e ainda recomenda que você estique seus braços e toque nas "vestes do Senhor" você acredita?
Ou então quando pregadores e fiéis afirmam que o Deus Jeová fala com eles pessoalmente, através de sonhos, vozes em suas mentes ou mesmo visões reais você também acredita? Talvez você acredite tanto e deseje tanto ser também guiado pelas mãos de um Ser Supremo que passa a "ouvir" as mesmas vozes e ter as mesmas visões.
Ah, você não está somente imaginando que deus lhe dá orientações específicas? Você ouve mesmo a voz do cara que criou o mundo em 6 dias e descansou no sétimo? Ele apresenta imagens a você, como anjos de fogo, homens de longas vestes brancas, ruas de ouro e grandes mãos divinas tocando os enfermos durante reuniões de oração?
Hunn... Então, cuidado!
Logo, logo você pode começar a andar nu em público.
Esquizofrenia
Nomes populares: psicose; loucura; insanidade.
O que se sente:
Delírios: o indivíduo crê em idéias falsas, irracionais ou ilógicas.
Alucinações: o paciente percebe estímulos que, em realidade não existem, como ouvir vozes, enxergar pessoas ou vultos.
"Existe uma lógica perfeita dentro do delírio, só que ela não corresponde à realidade. Uma das características do delírio, aliás a que o diferencia do erro, é que não se consegue removê-lo com contra-argumentação lógica. A convicção é absoluta e tentar dissuadi-lo, é inútil."
(Wagner Gattaz - médico psiquiatra e professor de psiquiatria no Instituto de Psiquiatria da Universidade de São Paulo)
Na verdade, as semelhanças entre as afirmações dos religiosos e os sintomas dos esquizofrênicos é mesmo apenas uma coincidência. A maioria das pessoas que diz ver Jesus ou ouvir a voz de deus não está vendo ou ouvindo, de fato. Mas elas acreditam que sim, pois são altamente sugestionáveis. Tais pessoas nunca afirmam ter vivido alguma experiência sobrenatural antes de se envolver com a religião. As experiências e os recados de deus surgem apenas depois que elas estão envolvidas na religião. Normalmente, essas experiências acontecem durante cultos, onde são entoadas músicas envolventes, onde orações são repetidas, palavras de ordem entoadas e um grande transe coletivo acontece; ou durante períodos de jejum, isolamento ou muita concentração.
Eles nunca são tomados pela força divina durante uma descontraída sessão de piadas ou correndo pela rua para pegar o banco aberto a tempo de pagar aquela conta antes do vencimento!
Então a única diferença entre ver um elefante rosa e ouvir a voz de Jesus é que muitas pessoas afirmam viver a segunda experiência, enquanto a primeira não é tão comum em nossa sociedade (eu não conheço ninguém que tenha visto um elefante rosa, mas conheço muitas que vêem anjos).
Parafraseando Sam Harris, as pessoas religiosas não são necessariamente loucas (apesar de parecerem), mas suas crenças, definitivamente, são.
Levando isso em conta, talvez haja mais esperança para os esquizofrênicos, pois para eles há remédios que eles podem engolir. Já para os místico-religiosos o remédio são o conhecimento e o pensamento racional e lógico, coisas das quais eles insistem em fugir.




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