quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

Quero um vilão para chamar de meu!


Acredito intensamente no ocultismo e uso sempre que preciso. Na verdade, virei um mestre do ocultismo: quando me oculto, ninguém me acha. Telepatia pra mim é coisa trivial e leio pensamentos até de espíritos antigos, é só abrir os livros.

Guga Schultze

(Mas para quem quiser encontrá-lo ele está AQUI)


Li o artigo "É, não ser vil, que pena!", de Guga Schultze, publicado no Digestivo Cultural. e refleti que seria mesmo bem proveitoso ser o protegido de um super vilão. Não precisa nem ir muito longe, pensando nos vilões mirabolantes e estereotipados como Lex Lutor, Coringa, o diabo em pessoa vivido por All Pacino ou o vampiro Lestat. (Mas que seria bom ser protegida de Lestat, seria. Kirsten Dunst e seus cachinhos vampirescos que o digam!) Mas basta pensar em Dom Vito Corleone! Quem não fica fascinado, ao assistir O Poderoso Chefão, com a maneira que Dom Vito resolve tudo para todo mundo? Quem não adoraria ter um padrinho como ele?


Leia um trecho do artigo:

...Aqueles santos. O nível mais alto da bondade humana, segundo a Igreja, está definido nos santos. Muitos foram mártires e, como o nome diz, martirizados das formas mais loucas, da pedrada ao ataque de bestas feras, enterrados vivos ou cozinhados no azeite. Sem querer discutir o mérito dessa bondade suicida, os santos apresentam, geralmente e junto com essa bondade toda, um alto nível de bobeira. Bons e bobocas. Como já disse, não pretendo desacatar a imagem desses santos homens, mas apenas apontar para a maléfica equação cristã: Puro + Indefeso + Ingênuo = Bom. Uma equação do Mal, diga-se de passagem. Com sua contraparte, também do Mal: Esperto + Agressivo + Inteligente = Mau.

Desnecessário lembrar que os sábios bondosos são notoriamente incapazes de correr para salvar a pele. Ou pelo jovem rapaz negro, que tira o capuz que escondia seu rosto e resolve dizer umas verdades, bem no meio da convenção anual da Ku Klux Klan. O cinema está cheio de cenas desse tipo. Em Dança com Lobos, Kevin Costner faz o soldado da cavalaria americana que é acolhido gentilmente pelos índios e aprende a gostar deles. Durante o longo tempo em que permanece na aldeia dos índios, ele está vestido como soldado da cavalaria. Quando fica sabendo que outros soldados estão acampados num local próximo dali, ele parte para tentar intermediar o conflito iminente e vai, fantasiado de índio dos pés a cabeça, tentar convencer seus antigos companheiros indianófobos que os índios são gente boa. Ou seja, seu crescimento interior como ser humano é claramente acompanhado de um equivalente e progressivo retardamento mental.

Porque também é estranho a gente torcer pelo canibal Hannibal (Anthony Hopkins), por exemplo, no Silêncio dos Inocentes (e nas seqüências inevitáveis). Excetuando-se o pequeno desvio de caráter que faz com que ele goste de morder a cara das pessoas e chupar seus cérebros, o homem é de uma inteligência brilhante, calmo, culto, paciente, confiável, honesto, capaz, generoso e não sei mais o quê.

Na verdade, o que a gente gosta nesses psicopatas brilhantes do cinema é que eles não são indefesos. A gente sente que poderia confiar neles em questões cruciais de vida ou morte, caso eles estivessem do nosso lado. A própria vida não passa de uma questão dessas: uma crucial questão de vida ou morte.

Não dá pra confiar em mártires nem em seus métodos, em qualquer momento que seja decisivo. Mártires já vão morrendo logo de saída. Costumam defender, com a própria vida (!), a tese de que os bons são perdedores natos, losers radicais. Morrem à-toa, à-toa.


Guga SchultzeBelo Horizonte, 13/2/2008


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