quarta-feira, 19 de março de 2008

Encontrei uma barata na cozinha...


Ofereci a ela um disco dos Sex Pistols
Ofereci a ela uma batida de limão
Perguntei se ela gostava dos Beatles
Perguntei se ela era de escorpião
Ela disse: Sim! Vem "Kafka" comigo...
La cucaracha... La cucaracha...
Tome cuidado com a sandália de "burracha"

Inimigos do Rei, lembram?Sempre achei essa musiquinha divertida.Principalmente depois que entendi toda a letra. Eu era criança quando ela começou a tocar nas paradas e no programa da Xuxa (tenho certeza que eles se apresentavam no Xou da Xuxa) e ainda não sabia o que era Sex Pistols e entendia a letra toda errada. Bem, essa música foi inspirada no livro "Metamorfose", de Kafka, que li mês passado.Estou cheia de livros ainda não lidos, mas encontrei a Metamorfose, por 9 reais, na livraria. Já que é um clássico e sempre tive vontade de ler, comprei. E a curiosidade de conhecer esta história tão famosa me fez passá-la na frente de minhas outras prioridades de leitura. Assim como acontece com todos os clássicos, Metamorfose, de Kafka, se tornou um livro mais citado e comentado do que propriamente lido. Na verdade, é só falar em Kafka que a maioria das pessoas pensa logo em barata. A maioria das pessoas, com um mínimo de cultura, porque o resto não pensa em nada mesmo. Nunca ouviu falar.

A transformação de Gregor Sansa - Barata ou o quê?
Bem, para começar em momento algum do livro, Kafka deixa claro que o inseto no qual Gregor Sansa se transforma seja mesmo uma barata. Mas o bicho é tão nojento (só sente apetite por coisas podres e inspira asco na irmã, que cuida dele) que deve ser mesmo uma barata. O que fica claro é que ele é um inseto e não é bonito. Fica fora de cogitação que ele seja uma joaninha!

Leia antes das refeições se quiser emagrecer
Que os bulímicos e anoréxicos não leiam isso: mas A Metamorfose pode te fazer vomitar, se você ler após as refeições ou perder o apetite completamente, se resolver ler antes!
É de embrulhar o estômago. O livro conta a história de um cara, chamado Gregor Sansa que trabalha como caixeiro vajante para sustentar a família, é todo certinho e tem um chefe muito chato. Numa nada bela manhã, com viagem de trabalho marcada, ele acorda e descobre que não é mais gente. Já pensou, você acordar de manhã e descobrir que não consegue levantar, porque agora você tem um casco?
"Jogar a coberta para o lado foi bem simples; ele precisou apenas inspirar um pouco e ela caiu sozinha. Mas os passos seguintes se mostraram difíceis, sobretudo porque ele estava incomumente largo. Teria necessitado fazer uso dos braços e das pernas, a fim de se levantar; ao invés delas, no entanto, ele possuía apenas várias perninhas, que se movimentavam sem parar em todas as direções e que ele, além de tudo, não conseguia dominar. Quando queria dobrar uma delas, a mesma era a primeira a se esticar(...)"
Aos poucos, Gregor vai, forçadamente descobrindo no que havia se transformado (uma barata ou algo bem parecido). E aí as descrições de suas novas sensações são bem pormenorizadas. Por isso que minhas primeiras reações no início da leitura foram de nojo e embrulho no estômago. Não é exagero quando digo que evitei ler antes do almoço pra não perder a fome. O olfato de Gregor muda, sua voz vai se transformando em guinchos roucos e sua visão se adeqüa melhor a escuridão. Ele sente fome, mas não consegue beber o leite que a irmã dele traz numa tigela. Gregor só passa a se alimentar quando sua irmã leva várias opções de "pratos" para ele escolher. Dentre eles, legumes podres, pão bolorento e queijo velho e apodrecido, além, de comidas frescas e ideais para um ser humano. A escolha dele mostra que, sem dúvida, ele estava se afastando totalmente dos gostos normais de um ser humano:
"Rapidamente, e com os olhos lacrimejando de satisfação, ele devorou, um atrás do outro, o queijo, os legumes e o molho; as comidas frescas, ao contrário, não lhe agradavam; não conseguia suportar nem mesmo o cheiro delas."

Virou barata e faltou ao trabalho
Mas o mais bizarro do livro nem é o fato de um homem ter se transformado em uma barata. Mas o desespero que ele sente, não porque se transformou em um bicho asqueroso e nojento, mas porque teria que faltar ao trabalho e não teria como dar uma desculpa convincente. A preocupação de Sansa é com o trabalho e a família e todo o sentimento de culpa e a vergonha que ele passa a sentir com sua nova condição parece que já existiam antes e são apenas evidenciadas por sua metamorfose.

O paralelo
Claro que é possível fazer um paralelo da metamorfose de Gregor Sansa com qualquer metamorfose que sofremos na vida. Nem todas ruins, mas todas podem ser traumáticas. De crianças para adolescentes: pêlos crescendo, glândulas se tornando aparentes, desejos estranhos, cheiro diferente no corpo. De adolescentes para adultos: responsabilidades a mais, as bochechas fofas desaparecendo, as espinhas dando uma trégua... E, enfim, quando começamos a nos acostumar com nosso corpo e nosso rosto, mais transformação: rugas, flacidez, gordura que não desaparece tão fácil, cabelos brancos, expressão mais dura, bunda mais mole!

Era uma vez uma baratinha
Logo no início de minha leitura de A Metamorfose, ao comentar sobre isso com uma amiga, ela disse : dá uma pena da dona baratinha! Eu ainda estava na fase de sentir apenas nojo. Mas ao longo do livro, vai dando pena mesmo. Pena das baratas e de qualquer ser rejeitado pela sociedade. Vivendo em becos e tocas, em meio a sujeira, tentando adequar suas limitações a esse mundo hostil e fazer o melhor uso possível das vantagens que a natureza lhes deu. Sendo obrigadas a viver escondidas desses predadores, os humanos, que matam pelo simples desejo de não olhar para elas. Alvo de ódios e nojos, instintos assassinos e medos. Vida sofrida a da dona baratinha!
Não me admira ela ter aquele casco duro que faz "creck" quando a gente bate com o chinelo em cima.Na próxima vez que você encontrar uma barata na cozinha,ofereça a ela um pedaço de pudim!

1 comentários:

L.S. Alves disse...

O texto abaixo foi extraido de uma palestra do Mia Couto. Quando li o teu post lembrei imediatamente do texto desse escritor moçambicano.
.
E regressamos à questão da pessoa humana. Ao longo da História, as operações de agressão aos
outros começam curiosamente por despessoalizar esses mesmos outros. Por assim dizer esses –
os inimigos – não são pessoas humanas como nós. A primeira operação na guerra dos EUA contra
o Vietname não foi de ordem militar. Foi de ordem psicológica e consistiu em desumanizar os
vietnamitas. Eles já não eram humanos: eram amarelos, eram seres de outra natureza sobre os
quais não haveria problema de ética em lançar bombas e napalm.
O genocídio no Ruanda foi aqui perto e não muito distante no tempo. Comunidades que conviviam
em harmonia foram manipuladas por elites criminosas ao ponto de se ter cometido o maior
massacre da história contemporânea. Se antes de 1994 perguntássemos a um tutsi ou a um hutu
se acreditavam que aquilo poderia acontecer no seu pais eles declarariam que isso era
inimaginável. Mas suc edeu. E sucedeu porque a capacidade de produzir demónios é ainda muito
grande nos nossos países. Quanto mais pobre é um pais maior é a capacidade de se destruir a si
mesmo.
A partir de Abril de 1994 e durante 100 dias consecutivos mais de 800 000 tutsis foram
assassinados pelos seus compatriotas Hutus. Machados e catanas foram usados para chacinar 10
000 pessoas por dia, o que dá uma média de 10 pessoas por minuto. Nunca na História humana
se matou tanto em tão pouco tempo. Toda esta violência foi possíve l porque se tinha trabalhado
para provar, uma vez mais, que os outros, não eram pessoas humanas. O termo escolhido pela
propaganda Hutu para falar dos Tutsis era de cockroaches, baratas. A matança estava assim
isenta de qualquer objecção moral, estava-se matando insectos e não pessoas humanas,
compatriotas falando a mesma língua e vivendo a mesma cultura.