
Quando eu e meu namorado assistimos filmes juntos ele tem a mania de ficar me explicando algumas coisas que ele percebe no filme, tipo um lance de câmera diferente, a fotografia, algo no cenário que pode indicar um desenrolar diferente na história. Eu não acho isso ruim porque eu também adoro prestar atenção nas entrelinhas das tramas cinematográficas. Às vezes ele também tenta adivinhar o que vai acontecer na cena seguinte. Aquelas coisas, “agora ela vai chegar e pegar os dois juntos”, “ai só falta bater o carro agora” ou “eles vão fugir e deixar o dinheiro pra trás”... Normalmente ele acerta em todas as previsões. O legal é que ao assistirmos Juno ele não deu nenhuma bola dentro nas suas tentativas de prever o futuro da trama.
Juno vai além de qualquer lugar-comum que você possa imaginar. Quando você pensa que ela vai fazer isto, ela faz aquilo. Quando você acha que uma personagem vai falar algo que qualquer personagem de Hollywood falaria naquelas circunstâncias, ela fica quieta. Quem imaginaria que uma adolescente que está aparentemente decidida a abortar, desistiria de cometer o aborto por não conseguir parar de pensar no fato de seu feto já ter unhas?
Juno (o filme) retrata a família moderna, que já não se escandaliza com a gravidez de uma filha, mas cujos pais expressam algo que muitos pais pensam, mas não têm coragem de verbalizar. Depois que ficam sabendo da gravidez de Juno, eles comentam, “preferia que ela estivesse usando drogas”. Sim, porque hoje é mais comum que as adolescentes estejam usando drogas do que engravidando. E quem não sabe que uma aventura temporária com drogas pode render muito menos dor de cabeça do que uma gravidez indesejada? Por isso, o pai e a madrasta de Juno aceitam com facilidade que a menina queira gerar o bebê, mas dá-lo para adoção. E ao longo do filme não tem como não pensarmos que todos os contratempos que essa gravidez acarretou poderiam muito bem ser solucionados caso a garota tivesse persistido na idéia do aborto. Não que ela se posicione contra o aborto. Aliás, o filme não faz militância contra, ou a favor, a coisa alguma e a única figura anti-aborto que aparece no filme é uma menina de rostinho delicado e voz suave militando solitariamente na frente da clínica, segurando um cartaz contra o aborto e gritando palavras de ordem como se estivesse empunhando o pôster de um astro da música pop.
Nada é caricato no roteiro de Diablo Cody, nem mesmo a militante anti-aborto. Adolescentes são uma tribo muito retratada no cinema americano e estamos cansados de ver os estereótipos todos lá, como uma receita pronta: o rebelde desajustado, o nerd, o roqueiro, as patricinhas, a menina feia e rejeitada que se transforma na rainha do baile. Juno não tem nada disso. Tanto que a personagem Juno é desleixada e não liga para roupas e maquiagem, mas sua melhora amiga é loira e usa sainhas curtas plissadas e meias três-quartos. O "namorado" de Juno é um garoto que poderia ser o típico nerd, pela sua aparência e jeito de ser, mas é um esportista. Ninguém se encaixa num parâmetro imutável. Exatamente como na minha vida e na sua.
O filme também não tem a pretensão de propor discussões e nem há muito o que discutir após assisti-lo. Mas há muito o que sentir quando sobem os créditos finais. Eu chorei copiosamente, as lágrimas escorrendo pela identificação com a canção final. Porque o grand finalle não é nada daquilo que esperamos. A reviravolta que acreditamos ser certa não acontece, pois Juno não é um conto de fadas. Não há mocinhos ou bandidos e nem há como gostar o tempo todo de qualquer um dos personagens. Até Juno, a personagem principal, nos irrita um pouco às vezes com sua total falta de bons modos. A mulher que pretende adotar o bebê de Juno, interpretada por Jennifer Garner, no início parece uma megera perfeccionista e obcecada por controlar cada passo do marido! Mas ao longo da projeção vamos percebendo que ela é quase que obrigada a assumir o controle da casa, já que seu marido vive uma espécie de síndrome de Peter Pan. Porém também não há como culpá-lo: ele é apenas um homem confuso buscando refúgio nas coisas de que gosta, no caso, filmes de terror, música e uma relação platônica com a adolescente que vai doar seu bebê a ele e à esposa.
Os diálogos e a narração de Juno são tão incomuns e rápidos que fica impossível se desconcentrar durante o filme. Perca uma frase e talvez você terá perdido a frase mais genial da história. O filme é repleto de frases incomuns de serem ditas em filmes, mas muito comuns de serem ditas na vida real e não é possível determinar o ponto alto do roteiro. O que mais me marcou pode não ser aquilo que mais vai chamar a sua atenção. O filme Juno é um filme incomum porque a garota Juno é uma garota comum. Se você encanta-se com a beleza da vida real, você se encantará com Juno.




22 comentários:
Assisti o filme essa semana e concordo com vc. Um dos melhores que já vi.
Bjs
Belo texto, sincero e gentil.
É um filme pequeno, afetivo e emocionante. Todos os personagens são cativantes e apresentam uma cumplicidade enorme com a realidade, graças a inteligência da roteirista Diablo Cody, outra que nos resta torcer para que não tenha o triste fim de Callie Khouri. Lembra dela, a roteirista superestimada de Thema & Louise?
É uma pena pensar que apenas este tornou-se darling do público porque ganhou o Oscar e fez sucesso, no meio de tantos outros que nem são lembrados pela Academia Cinematográfica.
Bem, achei um filme bem comum...
Eu gostei do filme!
lindo blog!
Este é um dos q fazem parte da minha lista de "Filmes para rever até morrer".
Eu já vi ele zilhões de vezes no meu pczinho. Sua resenha tá quase perfeita. Só faltou falar da trilha sonora, q me deixou flutuando aqui. Até o "I am a vampire" durante os créditos finais eu ouço até o fim.
1 filminho despretensioso, nada estereotipado, mas q mostra a realidade dq há de bom nas pessoas, mesmo nas consideradas ruins.
1 abraço.
O que mais encanta é o poder que a Juno tem - sem querer - de fazer com que as pessoas se apaixonem por ela. Tanto o namoradinho dela quanto os pais da criança... é um filme todo cheio de amor e confusão, exatamente como a vida adolescente.
E eu também me apaixonei por ela.
*--*, deu vontade de ver o filme agora.
Boa dica, quero assistir o filme há tempos!
=***
ah meu deu uma vontade enorme de assití-lo, Ju!!!
e u tb tenho mania de ficar comentando as cenas durante o filme, mas acho que eu (no meu caso) sou chata o__O
beijo!
Ví no cinema assim que lançou. Aliás, adoro ver os filmes que concorrem ao oscar. Só não consigo entender como a crítica escolhe os filmes.
Acho que Juno realmente se destaca por ser um filme diferente de qualquer outro que ví, mas confesso que fiquei de saco cheio na metade do mesmo. Não é o tipo de filme que faz o meu tipo, mas também não tiro os créditos.
Um abraço
Vou considerar sua indicação! Ahhh e longe de mim tirar você... bjosss se cuida linda!
eu achei o final meio água com açúcar mas AMEI.
Fiquei curiosa pra assistir.
Valeu a dica.
Beijão Jú.
Uhumm... agua na boka... ainda num vi, quero ver...
Já li varias criticas boas...
Então... Li uma crítica falando justamente sobre ser-ou-não-ser um clichê adolescente. É ela dizia que certamente não... (o que no fundo não tem nada de absoluto, levando em consideração que hoje em dia tudo é clichê no mundo dos filmes e da música) visto que no geral quando são filmes adolescentes, geralmente o tema abordado é o high school, tem uma menina má (a líder de torcida) x a menina boa (a novata/esquisita) que no final se dará bem depois de passar um filme inteiro se dando mal*...
Juno foge desta regra por tratar de fatalidades da vida e seu choques reais na vida de uma jovem...
Mas não sei pq infelizmente ainda não vi...
sniff sniff
{pq não me convidou? hehehe}
;D
Oi Ju!!!tudo bom?!! :)
Então...faltou eu explicar como fiz pra explicar o que é preconceito pra minha princesa lá né? heheh
Eu citei alguns exemplos...disse a ela que "se ela encontrasse na escolinha um colega negro ele poderia ser tão legal e brincar de coisas legais com ela como qualquer outra criança branca, que preconceito é qdo a gente pensa algo do coleguinha sem nunca ter falado com ele, que só a muda a corzinha da pele e que é muito feio a gente falar mal sem saber..."acho que ela entendeu...ahuahuha
beijos!
ahuahuuauaha... vc e sua amiguinha já se pegaram no tapa? kkkkkkk! Nossa, eu era mto pacífica, chegava a ser tansa... Pra não dizer que eu não batia em ninguém: eu e meu irmão nos estapeávamos esporadicamente! ahuhuahuaueauae
E eu adorei Juno! Chorei igual uma maluca no final. Sai do cinema toda vermelha.
Passando para ver se tem novidades... bjo
Excelente resenha do filme, do qual confesso que esperava mais. Falou-se tanto dele que eu esperava uma obra-prima, enquanto a tela do cinema mostrou um filme excelente, mas não extraordinário.
Talvez eu tenha criado uma expectativa muito grande - e quanto maior a expectativa, maior a decepção. Mas a verdade é que fiquei com a impressão de que os roteiristas preocuparam-se tanto em mostrar uma história comum, que pode acontecer com qualquer um, que a história ficou comum demais. No cinema, a história tem que ter algo pitoresco, incomum, pois se for para assistir ao cotidiano, fico na janela de casa.
Querida, não assisti ainda ao filme, mas a-do-rei o seu blog. Passei para agradecer a visita e colocar o texto de que você gostou a sua disposição. Seu comentário foi o presente de minha volta de férias.
Observação: no seu perfil, li que você tem bruxismo. Temos algo em comum...
Beijos, Eugenia
Querida, não assisti ainda ao filme, mas a-do-rei o seu blog. Passei para agradecer a visita e colocar o texto de que você gostou a sua disposição. Seu comentário foi o presente de minha volta de férias.
Observação: no seu perfil, li que você tem bruxismo. Temos algo em comum...
Beijos, Eugenia
nossa, fiquei altos curiosa! quero ver juno! se já queria antes, quero agora mais ainda. não sou o tipo de expectadora cult ao extremo, preciso de coisas que mexam comigo e me mantenham acordada!!! em "o cheiro do ralo", por exemplo, eu facilmente daria descarga!
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