quinta-feira, 24 de julho de 2008

O panteão dos vilões inesquecíveis ganhou mais um membro

Dizem que um bom ator é aquele que consegue desaparecer dentro de seu personagem. Em Batman - O Cavaleiro das Trevas você só lembra que o Coringa é Heath Ledger porque ele morreu há pouco tempo, no auge da juventude e em circunstâncias trágicas e duvidosas. Não fosse por isso, você seria capaz de não enxergar ator algum debaixo daquela maquiagem. Aquele é o Coringa, o vilão, o inimigo do Batman e ponto final.

Não nego que eu tenha ido ao cinema pronta para prestar atenção nele. Quando o Coringa aparecia em cena, eu me esforçava para fazer uma leitura dinâmica das legendas para logo poder observar as expressões faciais e corporais do personagem interpretado por Heath Ledger. Não porque eu fosse fã do ator. Nunca fui. Mas como todo mundo, também sou meio “papa-defunto” e o fato de saber que o cara morreu jovem e com uma carreira promissora pela frente faz com que queiramos aproveitar ao máximo sua derradeira atuação. E ao término do filme não há como evitar a pergunta: Por que desgraçado?! Por que depois de fazer uma interpretação invejável dessas você resolve em um belo dia que precisa tomar uns 10 analgésicos misturados a mais uns 15 ansiolíticos e anti-depressivos? Estava nervoso? Tomasse maracujina, meu filho! Queria se entorpecer? Uma meia garrafa de uísque não daria um resultado melhor?

O negócio é que ele se foi, mas deixou uma atuação memorável como o vilão de Batman. A sensação ao sair do cinema é mesmo de consternação por Ledger não estar mais presente para receber os louros do sucesso. A reação é exagerada? Não. Muita gente morre acidentalmente ou se mata todos os dias. Mas para quem é apaixonado por cinema ver que um ator com tanto potencial nunca mais vai brindar o público com uma bela interpretação é desolador. Já ouvi até alguém dizer que se comove mais com a morte de Ledger do que com a de Isabella! Não vou citar o autor desta pérola e nem vou dizer se concordo ou não (quem me conhece que julgue).

Mas deixando tamanho sentimentalismo às avessas de lado, é impossível não se fascinar com a vilania do Coringa 2008. Eu já costumo gostar de vilões. São interessantes, irônicos, sagazes e mais parecidos com um ser humano normal do que os mocinhos (Se bem que em Batman ninguém é totalmente bom. Todos os personagens têm várias nuances.) Mas o Coringa não é apenas um garoto mau. Ele é quase um filósofo que justifica suas atitudes pelo simples desejo de gerar o caos. Um dos diálogos mais marcantes do filme é aquele em que ele afirma que a morte de soldados numa guerra ou de um indigente qualquer é totalmente aceitável, mas que se alguém resolve balear um prefeitinho qualquer, toda a sociedade se choca e se indigna. É algo que faz pensar: será que nos comovemos com a morte pura e simplesmente ou apenas com a morte de nossos iguais, daqueles que participam de nossa "casta social"?

O Coringa também é o agente que obriga as pessoas a fazerem escolhas que elas nunca gostariam de fazer, como a velha história de ter que escolher entre salvar a si mesmo ou ao seu irmão numa situação de morte iminente. Além do mais o senso de humor ácido e debochado do personagem levava o cinema inteiro a rir, mas não o riso solto e feliz, mas aquele riso de "meu deus como ele é cruelmente pirado" É como se em cada uma de suas aparições o Coringa olhasse para nós e dissesse "Why so serious?", assim como ele faz com aqueles que têm o azar de serem os ouvintes da história de suas cicatrizes. Cheguei a me comover quando ele conta pela primeira vez essa história. Pensei "nossa, fazerem isso com uma pobre criança só podia dar no que deu", mas quando ele narra a história pela segunda vez, com um roteiro totalmente diferente, você pensa "filho da mãe! Eu aqui sentindo pena, mas é só uma encenaçãozinha que ele usa como desculpa para enfiar uma faca na boca das pessoas e aterrorizá-las!" E é isso: o Coringa não vai lhe comover. Você não vai conseguir justificar a maldade dele. A maldade dele é diversão. Nada inocente, mas por pura diversão. É a maldade das crianças que botam fogo no rabo do gato ou dos jovens que jogam ovo nos passantes pela janela do prédio. Impossível encontrar uma desculpa racional e aceitável para as atitudes mórbidas do Coringa. Ao menos o filme não nos dá subsídios para isso. Algumas pessoas criticaram o fato de não haver explicação sobre o surgimento do personagem. Eu não senti falta de tais explicações. É muito mais fascinante vê-lo surgir "do nada", como o vento: não se sabe de onde vem, nem para onde vai. Já o caráter do Coringa pode ser parcialmente explicado pelas palavras do mordomo Alfred, vivido por Michael Caine: “Alguns homens roubam e matam sem nenhum objetivo definido. Querem apenas ver o circo pegar fogo.”

Claro que o roteiro e a direção de Christopher Nolan têm um papel importante no sucesso do Coringa de Heath Ledger. Os diálogos são ótimos e as frases ditas pelo Coringa são cheias de uma sabedoria permeada de humor negro. Mas de nada adianta um belo roteiro se o ator não estiver à altura. E Ledger estava. Até meu namorado que foi ao cinema cheio de preconceitos, pronto para criticar a atuação "daquele ator que já fez filme de veadinho", saiu do cinema admirado! Ledger interpretou o Coringa de forma soturna e assustadora. O jeito de caminhar, com um leve toque de bobo da corte, mas um bobo da corte maligno, de ombros tensos e curvados. O olhar de baixo pra cima, lembrando Alex De Large, o vilão de Laranja Mecânica, no qual Ledger buscou inspiração. Os trejeitos afetados de quem está prestes a explodir num surto psicótico. Os tiques nervosos, o olhar que não se fixa em um ponto, a língua o tempo todo passeando pelos lábios e pelos dentes. Sim, Coringa é um louco, daqueles que devem ser afastados do convívio social para o bem de todos nós. E Ledger passa muito bem essa idéia. Seus cabelos são desgrenhados e oleosos, e ele faz questão de dar uma ajeitadinha (como se fosse adiantar) quando fica cara a cara com a mocinha do filme. As brincadeiras dele são provocativas e de um mau gosto absurdo. Logo em sua primeira cena, ele pergunta: Querem ver uma mágica? (Quando ele fez a mágica, o rapaz da poltrona ao meu lado leva as duas mãos à boca e solta um gemido de espanto e terror. Eu também.) Quer saber de uma? Coringa é um espírito de porco! Mas um espírito de porco inteligente e que quer despertar o lado mais rebelde das pessoas. Quer saber de outra? Ele é um vilão tão fudidamente massa que é bem capaz de você torcer por ele quando assistir ao filme.

Heath Ledger vai ganhar um Oscar póstumo. E, obviamente, não torço por isso só porque ele está morto. Leia mais.

E o Coringa de Batman - O Cavaleiro das Trevas já está na lista dos vilões que nos apavoram e hipnotizam. Sem mais no momento, só me resta perguntar...




Aahhh... Você sabe!
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10 comentários:

Guga Schultze disse...

Muito boa apreciação. Aparentemente esse Coringa saiu de uma das melhores histórias escritas sobre ele, A Piada Mortal. Ainda não vi, espero as filas diminuírem, mas já sei o que vou assistir. Ótimo texto, abçs.

VINNY VALCANAIA disse...

Não duvido, aprovo o texto e assino embaixo.
Agora, sobre o Oscar póstumo, o buraco é mais embaixo...

Gui disse...

Eu só fui saber que ele era o coringa depois que o cara morreu.

é uma pena!O cara tem que ser muito fraco pra se matar né? ou ser muito corajoso? eis a questão.

Beijos!!!

Jazz disse...

Eu fiquei fã dele (Ledger) quando asissti um filme bobinho mas tão fofo, chamado "coração de cavaleiro". Só depois descobri que ele havia feito o "dez coisas que eu odeio em você" (que, por sinal, ainda não o assisti na íntegra!). Vale a pena, Heath era muito talentoso.
Ainda não vi o Batman, mas eu tô louca para ver. Batman Begins já me fez AMAR mais do que todos os Batmans anteriores, acho que esse então... Adoro heróis.
O Curinga é uma história à parte. Sempre tive muita RAIVA dele por ele ser tão sarcástico e tão mau. Como poderia sorrir? Desde o dia em que ele matou o Jason (Ex-Robin) com um pedaço de ferro, e eu li todo aquele sangue com uns nove anos de idade... Não, eu não gosto dele ;)

Comentário de nerd. Olhando pra mim, ninguém diz, né?

Victinhu disse...

Já tinha comentado lá no Flertando com a insanidade sobre o filme, mas n custa comentar denovo =)

Ledger, pra mim, sempre foi um bom ator. Gosto dele desde a atuação em coração de cavaleiro. Daquele filme em diante, todos nos quais ele participava, eu prestava bastante atenção em suas atuações. Não sou nenhum crítico ou profissional, mas sempre gostei. Ele faz o mocinho, o bandido, o gay, o desleixado, o culto e etc... Tudo com maestria. O cara é envolvente por sí só. Ainda não ví Batman, pois em Macaé - apesar de ser uma cidade rica - o cinema não presta. Tudo chega atrasado aqui.

ps: meu apelido é coringa. hehehehehe Não pelas maldades, mas pelo sorriso. Vê se pode!? Já gosto do meu sósia de graça.

Um bjo

Chá disse...

Algo em comum: também prefiro os vilões.

Rafael disse...

Qualquer vilão depois dele, será no mínimo, tão malvado quanto uma Hello Kitty.

Obrigado pelo comentário no meu blog.
Volte sempre!


=)

Jazz disse...

Eu já votei, mas tá dificil não ganhar da Leyla porque o loiro dela tá bem pior que o seu :P

Magalices disse...

Não vi o filme ainda, mas também penso: porque tu foi fazer isso seu nerds????!!! Por ele ser gato e por outros trabalhos que ele fez que gostei bastante.

Sobre a parte da morte de pessoas em guerra e pobres, já analisei isso. Basta olhar a importancia que dão para algumas mortes na nossa mídia, sendo que muitas pessoas morrem disso mas não tem um certo nome importante na sociedade. Ou não é filho de advogado, médico, ator, etc. Quem liga para os pobres? Nem o governo liga direito...

Mas ele não podia ter morrido!
:(

tiago jaime machado disse...

eu tenho um bloguinho sobre cinema, chamado cinezine.com.br

posso publicar lá a sua resenha?
aguardo seu ok.

tiago polkadots
@tiagomx twitter.