sexta-feira, 1 de agosto de 2008

O que é o ovo?


Todo mundo já ouviu falar de Clarice Lispector.
Quem nunca teve uma professora de literatura que a citasse? Quem nunca foi obrigado a ler alguma obra da autora (ou seu resumo) para as famosas fichas de leituras? Principalmente, quem nunca viu frases soltas atribuídas a Clarice em blogs, fotologs, perfis do orkut? Mas daquilo que muito se fala, pouco se conhece. As novas gerações sabem que Clarice Lispector existiu. E que era uma escritora. Só. Os mais bem informados talvez saibam o título de alguns de seus livros. Fica apenas aquele nome pairando no ar, como uma espécie de Deus. Todos falam nele, mas ninguém sabe ao certo quem é, o que é ou mesmo se realmente é.

Clarice era e é.
Você já ouviu elogios aos romances e contos dela? Saiba que todos eles são válidos. Acabei de ler o conto O ovo e a galinha, conto este que foi o discurso da autora em uma convenção de Bruxas. Clarice não era declaradamente uma bruxa, apesar de sua obra nos fazer mergulhar em mundos profundos dentro de nós mesmos. Talvez a tenham convidado por causa desse fascínio que suas palavras exercem.

Clarice não é leve.
Ela trata de temas cotidianos, sim, mas daquele momento do cotidiano em que somos pegos de surpresa por nossas próprias inquietações. As personagens de Clarice que passam despercebidas pela vida nos são expostas abertamente e, vendo a ignorância delas, somos despertados para as questões mais angustiantes da existência. A ignorância, a mediocridade, a vaidade, o medo da morte, o medo da vida, as escolhas difíceis, a velhice, o amor: está tudo lá, sem julgamentos, sem lições de vida, nem respostas prontas. Quando você estiver num momento superficial e quiser permanecer assim, não chegue perto de um livro de Clarice. Porque os questionamentos, ou a inércia, de suas personagens expõem nossas entranhas e nos viram do avesso. Leia se você não sabe as respostas porque nem conhece as perguntas.
Leia Clarice se não tiver medo de descobrir suas próprias perguntas.
“O ovo e a galinha”
é um de seus contos mais famosos. Na verdade, não se pode chamá-lo somente de conto. Ele é dissertação, filosofia, crônica, poema, tese. Eu acredito até que ele possa ser usado como uma espécie de livro de meditação ou como aqueles livrinhos de bolso com uma mensagem edificante para dia. Com a diferença de que O ovo e a galinha não vai dar a você uma mensagem de auto-ajuda. Pode ser que dê. Mas pode ser que lhe dê uma pergunta, pode ser que lhe dê esperança, pode ser que lhe dê maturidade, resignação, desejo. Escolha...

Olhar é o necessário instrumento que, depois de usado, jogarei fora. Ficarei com o ovo. – O ovo não tem um si-mesmo. Individualmente ele não existe.

Quando eu era antiga fui depositária do ovo e caminhei de leve para não entornar o silêncio do ovo. Quando morri, tiraram de mim o ovo com cuidado. Ainda estava vivo.

Tomo o maior cuidado de não entendê-lo. Sendo impossível entendê-lo, sei que se eu o entender é porque estou errando. Entender é a prova do erro. Entendê-lo não é o modo de vê-lo. – Jamais pensar no ovo é um modo de tê-lo visto.

Quem se aprofunda num ovo, quem vê mais do que a superfície do ovo, está querendo outra coisa: está com fome.

Mas dedicar-me à visão do ovo seria morrer para a vida mundana, e eu preciso da gema e da clara.

É isento da compreensão que fere. – O ovo nunca lutou. Ele é um dom. – O ovo é invisível a olho nu.

O ovo é coisa que precisa tomar cuidado. Por isso a galinha é o disfarce do ovo. Para que o ovo atravesse os tempos a galinha existe.

Deve-se dizer “o ovo da galinha”. Se eu disser apenas “o ovo”, esgota-se o assunto, e o mundo fica nu.

Para que o ovo use a galinha é que a galinha existe. Ela era só para se cumprir, mas gostou. O desarvoramento da galinha vem disso: gostar não fazia parte de nascer. Gostar de estar vivo dói. – Quanto a quem veio antes, foi o ovo que achou a galinha. A galinha não foi sequer chamada. A galinha é diretamente uma escolhida.

Pego mais um ovo na cozinha, quebro-lhe a casca e forma. E a partir deste instante exato nunca existiu um ovo. É absolutamente indispensável que eu seja uma ocupada e uma distraída. Sou indispensavelmente um dos que renegam. Faço parte da maçonaria dos que viram uma vez o ovo e o renegam como forma de protegê-lo. Somos os que se abstêm de destruir, e nisso se consomem.

Leia o conto inteiro - O ovo e a Galinha e depois me diga: quem ou o quê o ovo representa?
Clarice escreveu também para crianças. A mulher que matou os peixes, de autoria dela, foi um dos primeiros livros que li na vida. Li e reli dezenas de vezes, imaginando cada situação, cada personagem, cada bicho ali descrito. Li e imaginei tanto que ele está bem guardado na minha memória até hoje.

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18 comentários:

Xuxu Blog disse...

Parabéns!!!
Só tenho elogios.

Primeiro pelo nome que escolhesse pro teu blog.
Segundo por, com leveza de escrita, tocar em assuntos tão delicados, cobertos de preconceitos e torná-los... normais!

Adorei demais os posts sobre religião. Claro que existem os que não leem pra abrir a cabeça, somente para evitar que se abram... daí as críticas. Mas o título do blog deixa claro que, se é assim, vc veste a camisa (blusinha, melhor, hehehe) e deixa claro que isso não afeta em nada, pelo contrário!

Quanto ao tema desse post... Clarisse é cheia de nuances. E é delicioso como ela revela mistérios de coisas que estavam sempre ali, na nossa cara! É pra ler e viajar, não pra fora, mas para dentro de cada palavra; pois o legal da Clarisse é a profundidade de cada uma delas, nada ao acaso.

Deu vontade de ler mais!
Beijos
Xu

carlos guitar disse...

Bom, vai entender esssa coisas...
Por acaso entrei no seu blog, por acaso me linkei para um outro blog que disponibilizava uma entrevista com a nossa ilustre Clarice, de 1977. Parabéns pelo trabalho, qualquer coisa e-mail-nos.
Grande abraço !

Lari Bernardi disse...

Nunca tive paciêcia pra Clarice Lispector... num faz muito meu estilo...

Tinha uma professora que era enloquecida por ela.

;*

teaguentanosalto disse...

Nossa! que blog lindo! e o conteúdo também, claro..
adoraaaamos! vamos voltar mais vezes!
beijoss.

ladyrasta disse...

Definitivamente darling, egg is in the air...hehehe...

Tem um livro de crônicas dela, chamado "Aprendendo a viver" que desde que eu comprei nunca mais saiu da minha cabeceira. Tem "O ovo e a galinha" lá, e mais um montão de outros. Tenho o hábito de marcar com orelhas os trechos dos livros que eu mais gosto (tenho devoção por livros, mas os meus livros eu sublinho, eu marco..ele não é intocável não); pois bem: esse é um livro que tem um montão de marcações, de tanta coisa legal que tem lá dentro...

beijos!

Conde Vlad Tepish disse...

Boa noite linda Juliana, excelente texto, bravo! Em minha opinião, o ovo representa o espírito humano, em sua evolução reencarnatória, quebrando e não mais existindo naquela forma, renascendo em outra forma parecida (nenhum ovo no universo é igual ao outro, eles podem ser no máximo semelhantes quanto à forma e conteúdo), e a galinha (com todo respeito e acho que foi uma super colocação bem humorada da 'ucraniana' Lispector) trata-se da mulher, do elemento feminino da criação, mas ela deixa claro que o importante ali... É o ovo (espírito)... Agora responda-me uma coisa: "E os homens? São o galo ou a raposa?" Certo, eles também podem ser as minhocas do galinheiro é claro!
Beijos minha querida, adorei sua 'cara de má'... Na realidade tu és muito alegre e bem-humorada, oui?
Au-revoir! Nhac,nhac,nhac, voei!

Mara* disse...

olá juliana! realmente eu não tenho um pingo de paciência com essa parcela ignorante desse povo evangélico, aliás de qualquer religião. religião é atraso de vida, que o digam leonardo davinci, galileu e tantos outros que quase foram transformados em carvãozinho pelo fogo católico, romano e apostólico da 'santa' inquisição. mas em tudo, graças aos bons deuses, existe o desvio da regra geral, e existem evangélicos e evangélicos, e os iluminados encontram-se aqui neste site http://gospelgay.blogspot.com/ que recomendo e seria ótimo que você o repassasse para o mocinho. recentemente eu recebi a visita de uma 'serva de deus', e até fiz um post como resposta. agora, me responda rápido! porque esse povo tanto visita blogs e sites GLS? mistério!!!!!! um beijo terno.

Vanessa disse...

Já li algumas coisas de Clarice Lispector, e gostei bastante.
Fiquei curiosa pra ler “o ovo e a galinha".

Gostei do texto dela "Felicidade Clandestina".

O Profeta disse...

Majestosa e altivamente submissa
Uma árvore curva-se à lagoa
Encontrei um arco-íris perdido na terra
Este canto não pára até que a alma doa


Convido-te a olhar os sentires que emanam do altar do Sol


Boa semana


Mágico beijo

Victinhu disse...

Nunca lí um livro dela. Mas vc me deixou intrigado. Quem sabe quando eu terminar os que estão na fila.

Gui disse...

Sério? tu adora mesmo? hhhaha meu, eu quase pedi pra sair hahahaha

beijão

Silvia disse...

"� isento da compreens�o que fere. � O ovo nunca lutou. Ele � um dom. � O ovo � invis�vel a olho nu."

Gostei disso. Bom, sinceramente eu nunca li Clarice... Mas tenho que ler pelo menos alguma coisa, pra poder discutir n� hauhaua
Nem tinha te falado antes (e foi um trabalh�o achar o blog de novo), mas adorei os teus textos sobre religi�o. Inclusive, hoje li esss post aqui, que define quase exatamente o que eu penso acerca c�u, inferno, Deus e o capeta: http://umaasadosilencio.blogspot.com/2008/07/msica-ao-longe.html

Ufa. mas t�. S� pra dizer que o nome do blog ficou �timo, o layout tamb�m e eu t� add l� no meu, pra n�o ter que ca�-lo novamente, hahaha!

beijinho

Vanessa Pinho disse...

Já li algumas coisas de Clarice Lispector, e gostei bastante.
Fiquei curiosa pra ler “o ovo e a galinha".

Gostei do texto dela "Felicidade Clandestina".

Gui disse...

Quando ela fala em ovo, acredito que trata-se de "alma" msmo, do nosso eu, do "eu" de cada um de nós, dificilmente as pessoas conseguem conhecer/aceitar seu próprio "ovo"

:)

Carrie disse...

devolvendo a visita!

Da Clarice realmente só li "a hora da estrela" e por livre e espontanea pressão mesmo. Apesar de ícone, acredito que com os anos vamos formando nossos proprios gostos com os livros, apesar das imposiões das professoras primárias e secundárias e confesso não curtir muito o estilo dela (apesar desse livro ser muito bom, não é um dos que eu pegaria na biblioteca ou livraria hoje em dia)

Sobre as novas gerações não a conhecerem, eu concordo contigo. E acrescento que as novas gerações deixam a desejar não só no desconhecimento da literatura, mas no que mais me deixa indignada: música. Outro dia, comentei com alguém de 14 anos, sobre um cd da marisa Monte e a menina me perguntou: Quem é essa?

aff...galera..quem é Marisa Monte?

Em que mundo vc vive? No mundo dos Emos...e outras modinhas por ai..

Azar..não sabem o que perdem!

Bjus!!! Adorei seu blog e textos!

Juliana Dacoregio disse...

@Xuxu, obrigada pelos elogios aos meus escritos. Adorei o seu comentário sobre a obra de Clarice. Resumisse bem. Ela nos faz viajar para dentro de nós mesmos.

@Lari, precisa ter paciência mesmo. Aiás, é preciso um momento de quietude para ler Clarice. Mas tente mais uma vez. Algumas obras de literatura têm o momento certo para serem lidas.

@Lady Rasta, meus livros também não são intocáveis. Adoro marcá-los, grifá-los, sublinhá-los.

@Mara, obrigada por dar sua opinião sobre o comentário aquele que te mandei. Em breve sairá um post sobre o assunto. Obrigada também pela dica do blog.

@Silvia, obrigada pela dica e do blog. Vou olhar já, já!

Géh disse...

O blog é ótimo, leve e divertido!
Parabéns!
Add ao meu feeds ;)

Anna Oh! disse...

Clarice é diva! Lembro de alguns livros q me deixaram em uma profunda reflexão, qse uma crise existencial: A Paixão Segundo G.H. e Um Aprendizado, ou o Livro dos Prazeres

profundos.