sábado, 23 de fevereiro de 2008

Tempos Modernos


Amazing "Grayce"


Existem pessoas que são fadas. Ajudam-nos a ver a beleza da vida e de nós mesmos. Chegam num momento, de repente, e nos surpreendem quando mais precisávamos ou quando menos esperávamos. Grayce é o nome dela. Grayce que me faz pensar em graça e graciosidade. Mas ela não é graciosa na definição superficial da palavra. Não graciosa de laços e fitas e cor-de-rosas e palavras doces calculadas. Certamente há nela essa porção fêmea-menina (há em quase todas). Mas é certo também que ela não tem tempo para frufrus e ilusões adolescentes: é mulher, é mãe, é profissional. Sobretudo, é verdadeira; sobretudo, conhece-se, ou não teme buscar seus fantasmas, para então conhecê-los e, talvez, combatê-los. Isso é o principal. É o que faz dela autêntica, pois ser mãe, esposa e ter contas a pagar não transforma ninguém em um ser especial. É o fato de ser uma viajante da vida, uma caçadora de si mesma que faz dela essa pessoa capaz de olhar para o lado e espalhar sua graça a alguém que parece não precisar de graça alguma.
Grayce olhou para mim e não viu a caricatura. Não viu somente pele, olhos, cabelos, estruturas e cores. Grayce olhou meus escritos. Leu-me e teve acesso a minha alma. Estou certa disso. Pois só enxergando minha alma poderia lembrar de mim ao ler estórias que a tocaram e agora tocam a mim. Grayce ofertou-me livros.
Compartilhar descobertas com uma quase desconhecida, acreditar num talento embrionário não são gestos comuns. Daí eu afirmar que o nome dela é tão propício. Graça! Ou nobre como Grace Kelli, a princesa. Pois nobre é a palavra que melhor define o gesto desta Grayce da qual falo.
Meu ceticismo foi abalado. Agora acredito em fadas. Fui abençoada por uma. Sua varinha de condão foi um e-mail. Não recebi vestido bonito, nem carruagem feita de abóbora. Recebi livros antigos, que durarão até muito além da meia-noite. As mensagens contidas neles estarão comigo para sempre e, pouco a pouco, me incutirão lições. O gesto dela estará gravado em minha memória até o fim de meus dias, me fazendo lembrar que para 1000 bruxas que queiram me fazer morder a maçã, existe UMA fada. E é o suficiente.

Cambalhota ela vira e rabisca com a melodia...


Poema improvisado no msn pelo meu amigo Vinny, só para me dar inspiração:


" E Juliana suspira... a cama revira... Joga-se no chão, cambalhota ela vira...
Não quer deixar a noite morrer, teima com o relógio, pois na madrugada é o melhor horário pra escrever.
Não dorme mais, fica ali fervendo a mente.
De férias respira por um único instante.

Sua pena não para, risca e rabisca, oh menina inconstante!
Quando escreve tem convulsões, parece mais uma epilética.

Dizem que é loucura... "Que nada!", diz ela... "É uma cadência poética!"
De cada entrevistada ela faz uma musa... Delira, rodopia e da palavra abusa!
Cigarros, fuma alucinadamente. A nicotina passa e trespassa, fervendo-lhe a mente.
Com música então... Rabisca de acordo com a melodia, cata uma vírgula e dá um parágrafo, bailando dentro de uma poesia.
Inspiração, não tem lugar...
Um dia desses, no raiar da aurora, lembrou-se de certa coisa e botou a palavra pra fora!
Sossega Juliana!
Pára com isso!
Tua escrita tá virando vício...
Só queres saber de no teu bloco anotar!
Já sei Juliana... num bom verso, queres mesmo é te embriagar..."


Lindo! Sensível e meio clown, ou seja, tudo a ver comigo. Só não ingiro mais nicotina alucinadamente, mas deixa ali que fica charmoso (eu ainda acho charmoso sim, fumar enquanto se escreve! Sou uma mulher do século passado!)

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008


terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

Folha publica editorial sobre processos da Igreja Universal contra jornais


da Folha Online
A Folha de S.Paulo desta terça-feira (19) publica em sua primeira página um editorial sobre os processos movidos por fiéis da Igreja Universal do Reino de Deus contra os jornais "Extra", "O Globo", "A Tarde" e contra a própria Folha.
Nos processos, os fiéis se dizem ofendidos pelo teor de uma reportagem da jornalista Elvira Lobato, publicada em dezembro, que descreve as milionárias atividades do bispo Edir Macedo.
Leia abaixo a íntegra do Editorial.


Intimidação e má-fé


Bispos da Igreja Universal do Reino de Deus desencadeiam, contra os jornais "Extra", "O Globo", "A Tarde" e esta Folha, uma campanha movida pelo sectarismo, pela má-fé e por claro intuito de intimidação.
Em dezembro, a Folha publicou reportagem da jornalista Elvira Lobato descrevendo as milionárias atividades do bispo Edir Macedo. Logo surgiram, nos mais diversos lugares do país, ações judiciais movidas por adeptos da Igreja Universal que se diziam ofendidos pelo teor da reportagem.
Na maioria das petições à Justiça, a mesma terminologia, os mesmos argumentos e situações se repetiam numa ladainha postiça. O movimento tinha tudo de orquestrado a partir da cúpula da igreja, inspirando-se mais nos interesses econômicos do seu líder do que no direito legítimo dos fiéis a serem respeitados em suas crenças.
Magistrados notaram rapidamente o primarismo dessa milagrosa multiplicação das petições, condenando a Igreja Universal por litigância de má-fé. Prosseguem, entretanto, as investidas da organização.
Não contentes em submeter a repórter Elvira Lobato a uma impraticável seqüência de depoimentos nos mais inacessíveis recantos do país, os bispos se valeram da rede de televisão que possuem para expor a pessoa da jornalista, no afã de criar constrangimentos ao exercício de sua atividade profissional.
É ponto de honra desta Folha sempre ter repelido o preconceito religioso. A liberdade para todo tipo de crença é um patrimônio da cultura nacional e um direito consagrado na Constituição. A pretexto de exercê-lo, porém, os tartufos que comandam essa facção religiosa mal disfarçam o fundamentalismo comercial que os move. Trata-se de enriquecimento rápido e suspeito --e de impedir que a opinião pública saiba mais sobre os fatos.
Não é a liberdade para esta ou aquela fé religiosa que está sob ataque, mas a liberdade de expressão e o direito dos cidadãos à verdade.

domingo, 17 de fevereiro de 2008

Como criar uma Pseudociência


A psicologia social é o estudo da influência social – como os seres humanos e suas instituições influenciam e afetam uns aos outros. Nas últimas sete décadas, os psicólogos sociais vêm desenvolvendo várias teorias de influência social e testando a eficiência de várias táticas de persuasão. Defendo a tese de que muitas dessas táticas descobertas por eles são usadas todos os dias, talvez de forma não totalmente consciente, pelos divulgadores da pseudociência.


Para ver o quanto essas táticas podem ser usadas para divulgar tolices, vamos fazer de conta, por um momento, que queremos criar nossa própria pseudociência. Aqui estão nove táticas de propaganda muito comuns que poderiam nos levar ao sucesso.

1. Crie um fantasma
A maioria das pseudociências é baseada na crença numa meta distante. Alguns exemplos de fantasmas pseudocientíficos: encontrar um extraterrestre, contatar um parente morto numa sessão espírita, receber a sabedoria do Universo através de um golfinho canalizado e melhorar o jogo de boliche ou superar o trauma de um estupro com uma fita de mensagens subliminares.
O truque é levar o novo adepto a acreditar que o fantasma é possível. Não raro, a mera menção das delícias de um fantasma bastará para fascinar o nosso recruta. Afinal, quem não gostaria de melhorar sua vida sexual, sua saúde, aumentar sua paz de espírito, tudo por uma fita subliminar de US$ 14,95?

Mas, às vezes, a coisa é mais difícil, e precisamos de nossa próxima tática de persuasão.

2. Arme uma cilada racionalizadora
Faça a pessoa se comprometer com a causa o mais rápido possível. Isso feito, a natureza do pensamento muda. O coração comprometido não está muito interessado numa avaliação cuidadosa dos méritos do rumo de uma ação, mas sim em provar que está certo.


Para vermos como o comprometimento com uma pseudociência pode ser feito, vejamos um caso bizarro: os suicídios em massa liderados pelo líder religioso Jim Jones. Esta é a suprema pergunta do tipo “Macacos me mordam!”: “Por que matar a si e aos seus filhos por ordem de uma outra pessoa?”. Vendo de fora da seita, isso pode parecer estranho, mas para quem vê de dentro parece natural. Jones começava induzindo seus seguidores a comprometimentos fáceis (uma oferta para a igreja, assistir ao culto na quarta-feira à noite) e, então, ia aumentando o nível de comprometimento – mais dízimos, mais tempo no culto, juramentos de lealdade, admissão pública de pecados e as respectivas penitências, venda das casas dos fiéis, sexo forçado, mudança para a Guiana e, então, o suicídio. Cada passo era realmente pequeno. E onde os observadores externos viam um resultado estranho, os fiéis viam uma experiência crescente de engajamento.


Esse é um exemplo dramático, mas nem toda crença em pseudociência chega a tais extremos. Por exemplo, existem aqueles que ocasionalmente consultam um vidente ou ouvem uma fita subliminar. Em tais casos, o comprometimento pode ser garantido pelo que os psicólogos sociais chamam de “a técnica do pé na porta”. Funciona assim: você começa com um pedido pequeno, tal como aceitar um exame de coluna grátis com um quiroprático, tomar uma amostra de vitaminas ou completar um inventário de personalidade gratuito. Então um pedido maior vem em seguida – um realinhamento quiroprático de US$ 1.000, um regime à base de vitaminas ou uma cara série de seminários. O primeiro pequeno pedido cria o comprometimento: ora, por que você aceitaria aquele exame ortopédico, tomaria aquelas vitaminas ou completaria aquele teste se você não estivesse interessado e pensasse haver algo de bom nisso? Uma resposta extremamente comum: “Caramba! Acho que estou interessado!”. E a cilada racionalizadora está acionada.
Agora que garantimos o comprometimento da vítima com um objetivo fantasma, precisamos de algum apoio social para as crenças pseudocientíficas recém-descobertas. As próximas táticas foram projetadas para reforçar essas crenças.

3. Fabrique uma fonte de credibilidade e sinceridade
Nossa terceira tática é criar uma fonte de credibilidade e sinceridade. Noutras palavras, crie um guru, líder, místico, senhor ou outra autoridad aceitável e poderosa. Por exemplo, praticantes de medicina alternativa freqüentemente têm “diplomas de graduação” como quiropráticos ou homeopatas. Defensores de avistamentos de OVNIS, muitas vezes, se tornam diretores de “centros de pesquisa”. “Detetives sensitivos” vêm com longos currículos de serviços policiais. Profetas recorrem a sucessos passados. Por exemplo, a maioria de nós “sabe” que Jeane Dixon previu o assassinato do presidente Kennedy, mas provavelmente não sabe que também previu uma vitória de Nixon em 1960. Como as relações públicas modernas nos têm mostrado, ganhar credibilidade é mais fácil do que poderíamos normalmente pensar.
Produzir credibilidade é um recurso eficaz de propaganda por pelo menos duas razões. Primeira, nós freqüentemente processamos mensagens persuasivas num estado de desatenção – seja porque não estamos motivados para pensar, não temos tempo para refletir ou por falta das habilidades necessárias para entender o assunto. Nesses casos, a presença de uma fonte confiável pode nos levar a concluir rapidamente que a mensagem tem valor e deve ser aceita.
Segunda, produzir credibilidade pode fazer cessar o questionamento (Kramer e Alstad, 1993). Afinal de contas, o que lhe dá o direito de questionar um guru, um profeta ou um sincero pesquisador dos potenciais ocultos da vida?


4. Estabeleça um “granfalloon”
Onde estaria um líder sem ninguém para liderar? Nossa próxima tática dá a resposta.

Os “granfalloons” são poderosos meios de propaganda porque são fáceis de criar e, uma vez estabelecido, o “granfalloon” define a realidade social e mantém as identidades sociais. A informação é dependente do “granfalloon”. Uma vez que a maioria dos “granfalloons” rapidamente desenvolve grupos dissidentes, as críticas podem ser atribuídas a esses “malvados” de fora do grupo, que são, assim, reprimidos. Para manter uma identidade social desejada, tal como a de um pesquisador ou de um rebelde da Nova Era, deve-se obedecer aos ditados do “granfalloon” e seus líderes.
A sessão espírita clássica pode ser vista como um “granfalloon”. Note o que acontece quando você se senta na escuridão e ouve uma pancada. Você depende do grupo conduzido por um médium para a interpretação do som. “O que é isto? Um joelho contra a mesa ou meu falecido Tio Ned? O grupo acredita que é o Tio Ned. Discordar abertamente seria descortês."


É essencial para o sucesso dessa tática a criação de uma identidade social compartilhada. Ao criá-la, eis algumas coisas que você pode querer incluir:


(a) rituais e símbolos: eles não apenas criam uma identidade, mas fornecem itens para uma venda lucrativa;
(b) jargões e crenças que só os membros do grupo entendem e aceitam;
(c) objetivos comuns (ex.: acabar com as guerras, espalhar a fé, desenvolver o potencial humano de alguém): tais objetivos não apenas definem o grupo, mas motivam a ação enquanto os crentes tentam alcançá-los;
(d) sentimentos comuns (ex.: o entusiasmo de uma profecia que pode parecer verdadeira ou a racionalização coletiva de crenças estranhas para os outros): sentimentos comuns reforçam o senso de comunidade;
(e) informação especializada (ex.: o governo dos EUA faz parte de uma conspiração para encobrir os OVNIS): isso ajuda a vítima a se sentir especial porque ele ou ela faz parte “dos que sabem”.
(f) inimigos: inimigos são muito importantes, pois você, como um pseudocientista, precisará de bodes expiatórios para culpar por seus problemas e falhas.

5. Use persuasão autogerada
Uma outra tática para promover uma pseudociência e uma das mais poderosas já identificadas por psicólogos sociais é a persuasão autogerada – o sutil planejamento de uma situação que leve os alvos a convencerem a si mesmos.

Os comerciantes dos assim chamados produtos nutricionais descobriram esta técnica transformando os clientes em vendedores. Para criar uma organização de vendas com múltiplos níveis, o comerciante de “alimentos” recruta clientes (que recrutarão ainda mais clientes) para servir como representantes de venda para o produto. Esses clientes são recrutados como um teste de sua crença no produto ou com a esperança de obter muito dinheiro. Ao tentar vender o produto, o vendedor-que-era-cliente se convence ainda mais de valor da mercadoria que está vendendo. Um chefe de múltiplos níveis diz a seus novos representantes de venda para “responderem a todas as objeções com testemunhos. Esse é o segredo para motivar as pessoas”, e é também o segredo para convencer a si mesmo.

6. Construa apelos vívidos
Uma apresentação vívida provavelmente será memorável e difícil de refutar. Não importa quantos argumentos lógicos sejam usados para se opor à alegação pseudocientífica, a imagem daquele incidente ainda permanece e vem logo à mente para uma resposta.


7. Use a pré-persuasão
Pré-persuasão é quando se define a situação ou o cenário de modo que se possa vencer, às vezes sem ter o trabalho de levantar um argumento válido.

Empresas de fitas subliminares usam a diferenciação de produtos para responder a estudos com conclusões negativas acerca da eficácia de sua mercadoria. A alegação: “Nossas fitas têm uma técnica especial que as fazem superiores àquelas usadas no estudo e que não conseguiram mostrar o valor terapêutico das fitas subliminares”. Portanto, os resultados nulos são usados para fazer uma determinada fita subliminar parecer superior. A Psychic Network [rede americana de consultas por telefone com supostos videntes] tem uma abordagem similar: “Cansado daquelas estatísticas falsas? As nossas são comprovadas”, diz o anúncio.

8. Use heurísticas e lugares-comuns com freqüência
Minha próxima recomendação para o futuro pseudocientista é usar heurísticas e lugares-comuns. Heurísticas são regras condicionais simples do tipo “Se... então...” amplamente aceitas; por exemplo, se algo é mais caro, então deve ser mais valioso. Já os lugares-comuns são crenças amplamente aceitas que servem como base para um apelo; por exemplo, a reforma governamental da saúde deve ser rejeitada porque os políticos são corruptos. As heurísticas e os lugares-comuns obtêm seu poder do fato de terem grande aceitação e, portanto, induzirem pouca reflexão quanto a se a regra ou o argumento são apropriados.


Para criar e difundir uma pseudociência, borrife generosamente o seu apelo com heurísticas e lugares-comuns. Aqui vão alguns exemplos:


(a) A heurística da escassez: se é raro, é valioso.

(b) A heurística do consenso: se todos concordam, deve ser verdade. Fitas subliminares, anúncios de videntes por telefone e medicina fajuta sempre mostram testemunhos de pessoas que encontraram aquilo que procuravam.
(c) A heurística do comprimento da mensagem: se a mensagem é longa, é válida.

(d) A heurística da representação: se um objeto lembra outro então agem da mesma forma. Por exemplo, na medicina popular, a cura muitas vezes lembra a causa aparente da doença. A homeopatia é baseada na noção de que pequenas quantidades de substâncias que podem causar os sintomas de uma doença curarão essa doença. A Doutrina Chinesa das Assinaturas declara que a similaridade da forma determina o valor terapêutico; assim, chifres de rinoceronte, galhos de veados e a raiz do ginseng têm forma fálica e supostamente aumentam a vitalidade.
(e) O lugar-comum do natural: o que é natural é bom e o que é artificial é ruim. As medicinas alternativas são divulgadas com a palavra “natural”. Habilidades psíquicas são retratadas como capacidades naturais, mas perdidas. Alimentos orgânicos são naturais. É claro que grãos de visco também são, e eu não recomendo uma dieta baseada neles.
(f) O lugar-comum do deus interior: os humanos têm um lado espiritual que é negligenciado pela moderna ciência materialista. Este lugar-comum vem da noção da alma, que foi modernizada por Mesmer como magnetismo animal e então convertida pela Psicanálise no poderoso e oculto inconsciente. A pseudociência joga com esse lugar-comum oferecendo meios de entrar em contato com o inconsciente.

(f) Os lugares-comuns da Ciência. Os pseudocientistas usam a palavra “Ciência” de forma contraditória. Por um lado, a palavra é usada à larga pela maioria deles: fitas subliminares fazem uso da “mais recente tecnologia científica”; videntes são “cientificamente testados”; novidades terapêuticas são “o que há de mais avançado na Ciência”. Por outro, a Ciência é muitas vezes mostrada como algo limitado.


9. Ataque os oponentes destruindo seu caráter
Já que a melhor defesa é o ataque, ofereço-lhe o conselho de Cícero: “Se você não tem um bom argumento, ataque o demandante”.
Primeiro, as acusações mudam o tema da discussão. Segundo, as insinuações levantam dúvidas sobre o caráter da pessoa atacada. Finalmente, as insinuações e rumores negativos têm um efeito inibidor. A vítima começa a se questionar quanto à sua própria reputação e se a luta vale a pena. Um processo judicial fútil é uma maneira efetiva de aumentar esse efeito.

Publicado na revista Skeptical Inquirer vol. 19, nº 4 (julho-agosto/1995), pp. 19-25, com o título “How to sell a pseudoscience”.


Autor: Anthony R. Pratkanis
Tradução: Rodrigo Farias

sábado, 16 de fevereiro de 2008

Você precisa rever seus conceitos


O Princípio do Ateísmo - por Sam Harris


Em algum lugar do mundo, um homem acaba de seqüestrar uma garotinha. Logo mais ele vai estuprá-la, torturá-la e matá-la. Se uma atrocidade desse tipo não está ocorrendo neste exato momento, vai ocorrer dentro de poucas horas, ou no máximo de alguns dias. É essa certeza que podemos obter a partir das leis estatísticas que governam a vida de 6 bilhões de seres humanos. Essas mesmas estatísticas também sugerem que os pais dessa garotinha acreditam - tal como você acredita - que um Deus todo-poderoso e cheio de amor infinito está velando por eles e por sua família. Eles estão certos ao acreditar nisso? É bom que eles acreditem nisso?


Não.


O ateísmo em sua totalidade está contido nessa resposta. O ateísmo não é uma filosofia; não é sequer uma visão do mundo; é simplesmente o reconhecimento do óbvio. Na verdade, ateísmo é um termo que nem deveria existir. Ninguém precisa se identificar como "não-astrólogo", ou "não-alquimista".

O ateísmo nada mais é que os ruídos que pessoas razoáveis fazem diante de crenças religiosas não justificadas.


Um ateu é uma pessoa que acredita que o assassinato de uma única menininha - mesmo que ocorra uma vez em 1 milhão de anos - lança dúvidas sobre a idéia da existência de um Deus benevolente.


(Sam Harris, em Carta a uma nação cristã - filósofo, ganhador do prêmio PEN/Martha Albrand 2005 na categoria primeiro livro de não ficção por The End of Faith)

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

Homens de Visão



Mostre-me um homem que não goste de ver fotos de mulheres nuas e eu te mostro... Um gay! Nada contra os gays, é lógico. Talvez até eles gostem de ver fotos de mulheres em poses sensuais, nem que seja para ficar procurando os mínimos defeitos, assim como nós mulheres também fazemos. O problema é que ainda há namoradas e esposas que acham que seus homens só gostam de ver a nudez delas próprias e quando encontram fotos de alguma capa de Playboy nos arquivos do computador dele ficam surpresas e indignadas.
Tudo bem, ele já passou da puberdade, não está mais com os hormônios a mil e não vai trancar-se no banheiro com revistinhas de sacanagem (creio eu né, nunca se sabe). Mas isso não significa que ele tenha perdido o gosto por ver fêmeas humanas nuas em pêlo! Ele não tem nenhuma revista masculina em casa? Nem precisa, ele recebe por e-mail, todos os dias, as novidades em matéria de ensaios sensuais! Bem, “novidades” é maneira de dizer, porque as poses, caras e bocas são sempre as mesmas, só mudam os tamanhos das próteses de silicone.
É, ele recebe todos os dias e não é porque ele está cadastrado no gostosas.com (talvez esteja), mas é porque os homens têm uma espécie de sociedade secreta. Um deles – normalmente o mais sem nada para fazer – procura e salva as fotos das beldades que posam para ensaios sensuais. Depois disso, ele envia para todo o seu mailing list masculino. Não importa o nível de intimidade que ele tenha com o cara; pode ser o presidente da empresa onde ele trabalha, pode ser o vizinho de porta com quem ele só trocou duas palavras: fotos de mulheres com pouquíssima ou nenhuma roupa une até os inimigos mais declarados!
Claro que não pára por aí. João envia para José que envia para Pedro que envia para Carlos que envia para Fernando que envia para... o seu namorado!
Ah, mas ele não abre porque sabe que você não gosta que ele veja “essas coisas”? Ele não abre porque sabe que você tem ciúmes? Ele não abre porque é fiel? Ele não abre porque você é tão gostosa, tão gostosa, que quando ele não está com você ele até enjoa de mulher? Tudo bem, ele pode mesmo ser super apaixonado por você e fiel até debaixo d’água. Ele pode arrastar um trem por você. Mas ele abre os e-mails, sim. E olha. E repassa. E às vezes até salva para dar mais uma espiada depois. Faz parte das atribuições da sociedade secreta masculina.
Deve ter uma lei escrita em algum lugar: é dever do macho heterossexual, que possui endereço eletrônico, aceitar, abrir e apreciar toda e qualquer mensagem que contenha arquivos fotográficos de seres humanos do sexo feminino desprovidas de suas vestimentas. Aqueles que além de observarem tais arquivos, os repassarem a outros membros da sociedade secreta receberão 77 virgens ao chegar ao paraíso.
Então, não há escapatória: seu gato não vê apenas o seu corpinho, amiga. Ele vê muitos outros, ao menos uma vez por semana (mas algo me diz que está mais para “ao menos uma vez por dia”)! Vai fazer o quê? Proibir? Furar os olhos do coitado? Deixa isso pra lá, garota! Não estou falando para perdoar uma traição. Mas fazer tempestade num copo d’água por causa de peitos e bundas é uma perda de tempo!
Melhor procurar umas fotos do David Beckham e presentear suas amigas com deliciosos e-mails ilustrados!

Discutindo a relação



É lugar comum dizer que mulheres gostam de discutir a relação e que os homens abominam tal prática. Isso gera várias piadinhas a respeito, a maioria delas sem a mínima graça, porque faz parecer que conversar sobre a vida a dois é inútil e que é coisa de mulher histérica. A verdade é que poucas mulheres gostam de discutir o relacionamento e ninguém, independente de sexo ou opção sexual, chega diante de seu companheiro (a) e diz “meu bem, precisamos discutir a relação”.

Não é uma missão agradável “discutir a relação” porque implica abrir o jogo sobre atitudes do outro que me incomodam, ouvir a pessoa amada citar os meus defeitos, conversar sobre dificuldades de comunicação, explicar sentimentos e desejos que às vezes nem eu mesma entendo direito e tentar entender as razões do outro para ter agido desta ou daquela maneira.
Discutir a relação é chato, é cansativo e muitas vezes é um processo tenso que não se consegue completar em um só diálogo. Não raramente precisa-se parar para pensar sobre as questões discutidas e voltar aos assuntos quando a situação estiver menos tensa. Desgastante, sem dúvida.
Mas por quê não gosto das piadinhas estilo “mulheres gostam de discutir a relação, portanto são chatas e homens não precisam discutir relação alguma, pois fazem as pazes na cama”? Primeiro que, como já falei, mulher nenhuma ama discutir a relação.



Ateísmo é uma religião como qualquer outra...

Assim como Careca é cor de cabelo.

Assim como Ausente é só uma maneira de dizer presente.

Assim como "A Pé" é um tipo de Carro.

Assim como "Não Fumo" é uma marca de Cigarro.

Assim como Desligado é um canal de Televisão.

Fé ou Esquizofrenia? E tem diferença?


Chego para você e afirmo com toda a convicção que um elefante cor-de-rosa está seguindo-me por toda a parte ou que o apresentador do telejornal saiu de dentro da TV, sentou-se em meu sofá e repassou-me as notícias enquanto tomava um cafezinho, servido por mim, você acreditaria? Se você tivesse algum poder sobre mim, talvez você me internasse numa casa de repouso ou marcaria uma consulta urgente no psiquiatra.

Mas quando alguém fala para você que Jesus (aquele da Bíblia) está presente durante uma reunião qualquer de cristãos devotos, que está o vendo adentrar no recinto e ainda recomenda que você estique seus braços e toque nas "vestes do Senhor" você acredita?

Ou então quando pregadores e fiéis afirmam que o Deus Jeová fala com eles pessoalmente, através de sonhos, vozes em suas mentes ou mesmo visões reais você também acredita? Talvez você acredite tanto e deseje tanto ser também guiado pelas mãos de um Ser Supremo que passa a "ouvir" as mesmas vozes e ter as mesmas visões.

Ah, você não está somente imaginando que deus lhe dá orientações específicas? Você ouve mesmo a voz do cara que criou o mundo em 6 dias e descansou no sétimo? Ele apresenta imagens a você, como anjos de fogo, homens de longas vestes brancas, ruas de ouro e grandes mãos divinas tocando os enfermos durante reuniões de oração?

Hunn... Então, cuidado!
Logo, logo você pode começar a andar nu em público.

Esquizofrenia
Nomes populares: psicose; loucura; insanidade.

O que se sente:
Delírios: o indivíduo crê em idéias falsas, irracionais ou ilógicas.
Alucinações: o paciente percebe estímulos que, em realidade não existem, como ouvir vozes, enxergar pessoas ou vultos.
"Existe uma lógica perfeita dentro do delírio, só que ela não corresponde à realidade. Uma das características do delírio, aliás a que o diferencia do erro, é que não se consegue removê-lo com contra-argumentação lógica. A convicção é absoluta e tentar dissuadi-lo, é inútil."
(Wagner Gattaz - médico psiquiatra e professor de psiquiatria no Instituto de Psiquiatria da Universidade de São Paulo)
Na verdade, as semelhanças entre as afirmações dos religiosos e os sintomas dos esquizofrênicos é mesmo apenas uma coincidência. A maioria das pessoas que diz ver Jesus ou ouvir a voz de deus não está vendo ou ouvindo, de fato. Mas elas acreditam que sim, pois são altamente sugestionáveis. Tais pessoas nunca afirmam ter vivido alguma experiência sobrenatural antes de se envolver com a religião. As experiências e os recados de deus surgem apenas depois que elas estão envolvidas na religião. Normalmente, essas experiências acontecem durante cultos, onde são entoadas músicas envolventes, onde orações são repetidas, palavras de ordem entoadas e um grande transe coletivo acontece; ou durante períodos de jejum, isolamento ou muita concentração.
Eles nunca são tomados pela força divina durante uma descontraída sessão de piadas ou correndo pela rua para pegar o banco aberto a tempo de pagar aquela conta antes do vencimento!
Então a única diferença entre ver um elefante rosa e ouvir a voz de Jesus é que muitas pessoas afirmam viver a segunda experiência, enquanto a primeira não é tão comum em nossa sociedade (eu não conheço ninguém que tenha visto um elefante rosa, mas conheço muitas que vêem anjos).
Parafraseando Sam Harris, as pessoas religiosas não são necessariamente loucas (apesar de parecerem), mas suas crenças, definitivamente, são.
Levando isso em conta, talvez haja mais esperança para os esquizofrênicos, pois para eles há remédios que eles podem engolir. Já para os místico-religiosos o remédio são o conhecimento e o pensamento racional e lógico, coisas das quais eles insistem em fugir.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

Quero um vilão para chamar de meu!


Acredito intensamente no ocultismo e uso sempre que preciso. Na verdade, virei um mestre do ocultismo: quando me oculto, ninguém me acha. Telepatia pra mim é coisa trivial e leio pensamentos até de espíritos antigos, é só abrir os livros.

Guga Schultze

(Mas para quem quiser encontrá-lo ele está AQUI)


Li o artigo "É, não ser vil, que pena!", de Guga Schultze, publicado no Digestivo Cultural. e refleti que seria mesmo bem proveitoso ser o protegido de um super vilão. Não precisa nem ir muito longe, pensando nos vilões mirabolantes e estereotipados como Lex Lutor, Coringa, o diabo em pessoa vivido por All Pacino ou o vampiro Lestat. (Mas que seria bom ser protegida de Lestat, seria. Kirsten Dunst e seus cachinhos vampirescos que o digam!) Mas basta pensar em Dom Vito Corleone! Quem não fica fascinado, ao assistir O Poderoso Chefão, com a maneira que Dom Vito resolve tudo para todo mundo? Quem não adoraria ter um padrinho como ele?


Leia um trecho do artigo:

...Aqueles santos. O nível mais alto da bondade humana, segundo a Igreja, está definido nos santos. Muitos foram mártires e, como o nome diz, martirizados das formas mais loucas, da pedrada ao ataque de bestas feras, enterrados vivos ou cozinhados no azeite. Sem querer discutir o mérito dessa bondade suicida, os santos apresentam, geralmente e junto com essa bondade toda, um alto nível de bobeira. Bons e bobocas. Como já disse, não pretendo desacatar a imagem desses santos homens, mas apenas apontar para a maléfica equação cristã: Puro + Indefeso + Ingênuo = Bom. Uma equação do Mal, diga-se de passagem. Com sua contraparte, também do Mal: Esperto + Agressivo + Inteligente = Mau.

Desnecessário lembrar que os sábios bondosos são notoriamente incapazes de correr para salvar a pele. Ou pelo jovem rapaz negro, que tira o capuz que escondia seu rosto e resolve dizer umas verdades, bem no meio da convenção anual da Ku Klux Klan. O cinema está cheio de cenas desse tipo. Em Dança com Lobos, Kevin Costner faz o soldado da cavalaria americana que é acolhido gentilmente pelos índios e aprende a gostar deles. Durante o longo tempo em que permanece na aldeia dos índios, ele está vestido como soldado da cavalaria. Quando fica sabendo que outros soldados estão acampados num local próximo dali, ele parte para tentar intermediar o conflito iminente e vai, fantasiado de índio dos pés a cabeça, tentar convencer seus antigos companheiros indianófobos que os índios são gente boa. Ou seja, seu crescimento interior como ser humano é claramente acompanhado de um equivalente e progressivo retardamento mental.

Porque também é estranho a gente torcer pelo canibal Hannibal (Anthony Hopkins), por exemplo, no Silêncio dos Inocentes (e nas seqüências inevitáveis). Excetuando-se o pequeno desvio de caráter que faz com que ele goste de morder a cara das pessoas e chupar seus cérebros, o homem é de uma inteligência brilhante, calmo, culto, paciente, confiável, honesto, capaz, generoso e não sei mais o quê.

Na verdade, o que a gente gosta nesses psicopatas brilhantes do cinema é que eles não são indefesos. A gente sente que poderia confiar neles em questões cruciais de vida ou morte, caso eles estivessem do nosso lado. A própria vida não passa de uma questão dessas: uma crucial questão de vida ou morte.

Não dá pra confiar em mártires nem em seus métodos, em qualquer momento que seja decisivo. Mártires já vão morrendo logo de saída. Costumam defender, com a própria vida (!), a tese de que os bons são perdedores natos, losers radicais. Morrem à-toa, à-toa.


Guga SchultzeBelo Horizonte, 13/2/2008


terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

Eu nego, tu negas, ele nega!


É um nó, mas faz sentido. Texto do 1001 gatos





Tudo vai parecer uma pequena heresia, mas não desista de ler até o fim: só assim você acabará descobrindo o que eu estou fazendo por você. Sim, por você. Pronto?
Vou colocar tudo de uma forma bem simples: Eu nego o Espírito Santo. Eu nego o Espírito Santo. Eu nego o Espírito Santo.



Agora siga os passos:


1.
Schopenhauer certa vez já chamou atenção para o fato de que ler é pensar com a cabeça alheia. Seu cérebro interpreta as letras nesta tela de computador e elas fazem parte de seu fluxo de pensamento, logo, o raciocínio de certa forma está correto.


2.
Em Mateu 16, versículos 27 e 28, Jebus diz mais ou menos o que se segue: “Ouvistes o que foi dito: Não adulterarás, porra! Eu porém vós digo cambada de pecador!: Qualquer que olhar para uma mulher com intenção impura no coração, já adulterou com ela.” O que isso significa em pratos limpos? Que para o cristão, o pensamento é o ato consumado. Como não se precisa de um ato, e meramente uma intenção, um pensamento aleatório em uma leitura descompromissada - isso é pecado. Para pecar, basta pensar. O que nos leva diretamente ao último passo.


3.
Provavelmente se você tivesse que escolher entre uma eternidade de dor e sofrimento ou a salvação em um lugar que lembra um céu cheio de nuvens, ensolarado e com anjinhos nus, escolheria a última opção, principalmente se você fosse o Michael Jackson.

E para ser salvo é fácil. Basta aceitar Jesus em seu coração! E Jesus é um cara legal, ele perdoa você de qualquer coisa: mentira, assassinato, pornografia na internet. Inclusive se você falar mal dele como dizer que o coitado disse algo como “Não adulterarás, porra!”. Jesus lhe perdoaria!



Mas, no entanto (sempre há um “mas” para deixar as coisas mais interessantes), há um pecado que é imperdoável. Se você fizer isso, estará condenado para sempre, sem poder dar nenhum um telefonema ou chamar o advogado.



É tão imperdoável que não bastou entrar uma, mas duas vezes na Bíblia que como é inspirada por deus, fez questão de deixar duas vezes escrita.
Lucas 12:10
“Todo aquele que proferir uma palavra contra o Filho do Homem, isso lhe será perdoado, mas para aquele que blasfemar contra o Espírito Santo, não haverá perdão”
Marcos 3:29
“Mas aquele que blasfemar contra o Espírito Santo não tem perdão para sempre, visto que é pecado eterno”


Percebem onde quero chegar? Eu e você sabemos que você leu as linhas lá em cima e eu nego o Espírito Santo, oh! e agora de novo.



Você pensou com a minha cabeça. Você aceitou, ainda que sem saber, passivamente uma heresia em seu fluxo de pensamento. Apenas essa intenção o fez pecar - o pecado eterno. Você está condenado!


PS: Como você está oficialmente condenado, qualquer dia podemos marcar de jantar no Inferno. Ah, o Leônidas vai também!

sábado, 9 de fevereiro de 2008

Across the Universe


Beatles, contracultura, psicodelia. Quem me conhece sabe que esses elementos poderiam ser suficientes para que um filme me fizesse sair da sala do cinema embevecida. Poderiam ser, mas não foram. Surpreendentemente, saí do cinema muito irritada! Irritada porque Across the Universe é um musical tedioso, que usa as canções para disfarçar a falta de atrativos do roteiro. Tudo bem se fosse só isso, mas além de os números musicais serem utilizados a exaustão, não há uma performance sequer que realmente empolgue, seja pelas coreografias, seja pela emoção que os personagens viviam. Há bons momentos, como o alistamento militar do personagem Max, mas há também escolhas grotescas como a psicodelia forçada e enlatada durante a canção Benefit of Mr. Kite e há momentos simplesmente bobos, como o show no telhado do prédio da gravadora, com a polícia chegando e tudo mais, exatamente como aconteceu na última apresentação em público dos Beatles. Uma paródia desnecessária e cansativa, quando a projeção já poderia ter se encerrado há uns 30 minutos.
Um filme pode ser bobo e descartável e mesmo assim ser uma delícia de assistir. O problema de Across the Universe não é ser bobo. É ser bobo e pretensioso. Dá a impressão que os diretores estavam tentando criar uma obra de arte conceitual. As cores, figurinos e cenários são uma festa para os olhos! Mas o roteiro é previsível e a história anda mais devagar que o necessário para se fazer entender. Sabe aquele filme que você assiste até o final e ainda fica com a sensação de que ele não começou? Depois a gente percebe que o filme é lento simplesmente porque não tinha muita história para contar. No início ele é razoável, equilibra bem a história em si com os números musicais. Mas quando começa a ser necessário destrinchar melhor os acontecimentos, os números musicais são empurrados sem critério, quase uns após os outros. Os diálogos tornam-se apenas pequenas desculpas para encaixar as canções, ao contrário do que acontece em bons musicais, em que as performances, músicas e coreografias vêm para acrescentar e não para justificar a realização do filme. Há quem pense que musicais são sempre cansativos, mas Moulin Rouge e Os Irmãos Cara-de-Pau estão aí para provar que isso é puro preconceito.
“Filmes-colagens”, com vários acontecimentos históricos sobrepostos e misturando personagens reais com fictícios podem ser uma experiência fascinante. Podemos citar Forrest Gump, em que o personagem principal supostamente ensina Elvis a dançar e participa dos acontecimentos mais marcantes da cultura americana do século XX, isso para ficar apenas com um que também aborde a contracultura. Mas Across the Universe exagera nas citações, com referências a Jimi Hendrix, uma espécie de Janis Joplin sexy, um Bono que surge para cantar I am the walrus e levar os personagens em uma viagem de ônibus e ácido, a gravadora Apple dos Beatles vira Strawberry Fields, fazendo referência a canção de mesmo nome e o símbolo, é claro, deixa de ser uma maçã para se tornar um morango. Há também os nomes de vários personagens que fazem referências às músicas dos Beatles, como Lucy, Jude, Prudence, o que nos faz saber desde o início como essas músicas serão apresentadas.
O outro motivo que me fez sair irritada do cinema é que por ser um filme baseado na obra dos Beatles, a maioria do público iria adorar, pois Beatles são praticamente uma unanimidade e filmes sobre jovens que protestam contra a guerra do Vietnã também sempre caem no gosto da maioria. Não deu outra: na saída do cinema muitos rostos sorridentes, fascinados com a salada que acabaram de assistir. Nada contra saladas cinematográficas, nada contra filmes que parecem vídeo-clipes, nada contra referências a personagens reais, nada contra musicais. Mas se você gosta MUITO de Beatles e gosta MUITO de cinema assista Across the Universe em casa, para não ter que passar pelo desgosto de, após ver um filme previsível e pretensioso, ainda ter que dar de cara com pessoas satisfeitas achando que entenderam tudo quando não havia nada para entender.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

Troféu Olívio Lamas de Fotojornalismo


Limite do Desespero


“Era meu último dia em Buenos Aires e saí para um saque no caixa eletrônico. Na volta, passei defronte à Galeria Pacífico (principal shopping do centro da cidade portenha) e vi uma tentativa de suicídio. Voltei ao hotel, ali perto, para buscar meu equipamento fotográfico. As cenas seguintes foram de terror: o suicida, sem roupa, ameaçando se jogar, enquanto os bombeiros desciam em um ‘rapel’, para tentar resgatá-lo sem que fossem percebidos. Mas a luva de um dos bombeiros caiu e bateu no suicida, que se assustou e se projetou para além dos colchões de ar que aguardavam sua queda. Consegui captar o exato instante de seu pulo, mas o restante não fotografei. Estava chocado e a ética me impedia de gravar um ser humano naquelas condições”.

Hermes Bezerra, vencedor do prêmio Olívio Lamas de Fotojornalismo

terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

Mulheres: a força que move o mundo!


Gostei e reproduzo:



Não fosse pelo microfone do repórter, poderia se dizer tratar-se de um filme bíblico. O sujeito estava todo coberto de lama, junto com mais 30 mil iguais a ele, escavando a terra lá em Serra Pelada. O documentário era antigo, é claro, mas passou na televisão outro dia. E o mineirinho ali, ao ser perguntado por que queria achar ouro e ficar rico, não pestanejou:
“Pra cumemuié, uai”. Claro. Que outro motivo ele teria? Só fiquei na dúvida se era para conquistar a sua mulher ou para transar com qualquer mulher. Provavelmente a segunda hipótese.
O Cacá Rosset já tinha esta teoria há muitos anos: tudo que o homem faz tudo, é com um único objetivo: cumemuié. O cara faz um esforço desgraçado para ficar rico pra quê? O sujeito quer ficar famoso pra quê?
O indivíduo malha, faz exercícios pra quê? Mulher! Pode ser até a própria. Mas a verdade é que é a mulher o objetivo do homem. O pavão também é assim.
Os animais são assim. Os bichos só pensam nisto. Já as bichas, pra cumeomi.
Fico imaginando aqueles ministros todos lá na posse e um dizendo para o outro, enquanto posam para fotografias: “Vai rolar muita mulher aqui no pedaço”. O jogador quando faz o gol pensa a mesma coisa. O artista em close na novela tem certeza. Aquele candidato a prefeito naquela cidadezinha.
Para o que ele quer aquele pequeno poder? As mulheres, antigamente, ficavam trancadas dentro de casa e se tratavam e ficavam bonitas apenas para os seus homens. Aí começaram a dar liberdade pras danadas e deu no que deu. O mundo ganhou vida, além da beleza, é claro. Pode continuar a ler, minha querida, que as barbaridades vão parar por aqui. Pode parar de me achar machista, machão ou coisa parecida. Tudo que eu quis dizer é que o homem vive em função de você. Vivem e pensam em você o dia inteiro, a vida inteira. Se você, mulher, não existisse, o mundo não teria ido pra frente.
Homem algum iria fazer alguma coisa na vida para impressionar outro homem, para conquistar um sujeito igual a ele, de bigode e tudo. Um mundo só de homens seria o grande erro da criação.
Já dizia a velha frase que “atrás de todo homem bem-sucedido existe uma grande mulher”. O dito está envelhecido. Hoje eu diria que “na frente de todo homem bem-sucedido existe uma grande mulher”. É você, mulher, quem impulsiona o mundo. É você quem tem o poder, e não o homem. É você quem decide a compra do apartamento, a cor do carro, o filme a ser visto, o local das férias. É mesmo para você que vai o ouro extraído lá na lama. Bendita a hora em que você saiu da cozinha e, bem-sucedida, ficou na frente de todos os homens.
E, se você que está lendo isto aqui for um homem, tente imaginar a sua vida sem nenhuma mulher. Aí na sua casa, onde você trabalha, na rua, nas telenovelas. Só homens. Já pensou? Filmes só com homens? Romance sem uma Capitu ou uma Madame Bovary? Um casamento sem noiva? Um mundo sem cinturas e saboneteiras? Um mundo sem sogras? Enfim, um mundo sem metas.
Tá certo o mineirinho de Serra Pelada. Todo o ouro do mundo para as mulheres. E, aos homens, um abraço.