sexta-feira, 28 de março de 2008

Uma pequena identificação


Em "O Restaurante no Fim do Universo", de Douglas Adams há um trecho que fala sobre o fato de que em 85% de todos os universos conhecidos na galáxia há uma bebida chamada jynnan tonnixa, ou jiii-N`N-t`n-i-ca ou jiimnontônic. As bebidas são completamente diferentes no sabor e no modo de preparo, mas são semelhantes na pronúncia, mesmo tendo sido inventadas antes de qualquer desses mundos terem contatos uns com os outros.

Isso deixou os estudiosos lingüistas muito encafifados. Segue o trecho sobre esse assunto assim como está no livro:


"Os velhos lingüistas estruturalistas ficam muito irritados quando os jovens lingüistas estruturalistas estudam essa questão. Os jovens lingüistas estruturalistas ficam profundamente empolgados com isso e trabalham até altas madrugadas, convencidos de que estão muito perto de algo extremamente importante, e acabam se tornando velhos lingüistas estruturalistas cedo demais, ficando muito irritados com os jovens.


A lingüística estruturalista é uma disciplina amargamente dividida e infeliz, e muitos de seus adeptos passam muitas noites afogando seus problemas em Uizghee."


Por que será que achei tão engraçada essa passagem e me lembrei tanto de minhas aulas de filosofia?


Eu prefiro melão!


- Jesus era Deus ou era o maior mentiroso de todos os tempos!
- Ou completamente louco.
- Louco era Nietzsche, diz o professor. – Provado cientificamente!

Bom a loucura de Jesus, claro que não poderia ser provada cientificamente. Não naquela época.

E eu tentando entender por que um professor de filosofia se declara cristão e católico.

Estava desconfiada que ele só quisesse provocar os alunos, incendiar o debate, ou chocar, ser diferente. Minha última suspeita se mostrou verdadeira quando ele afirmou que a religião estava muito esquecida nos meios filosóficos e que esse assunto deveria voltar à tona. “O filósofo tem que nadar contra a corrente de seu tempo”, ele afirma. Bom, então é isso, creio que defender a religião foi a única maneira que ele encontrou de nadar contra a corrente de seu tempo!

Depois ele afirmou que Nietzsche nadou contra a corrente na sua época. Humm, entendi: o caro professor quer nadar contra a corrente também e nada criticando Nietzsche e exaltando o cristianismo. Mas nessa corrente aí eu já nadei, me afoguei, mas fui salva e sobrevivi.

Entendo que é importante haver pessoas que questionem o rumo das coisas e proponham novas discussões. Mas não procurei uma aula de filosofia pra ficar discutindo a salvação da alma. Ou para ouvir o professor dizendo que sem Deus não há por que discutir o sentido da vida! Como não?

Pode-se discutir o sentido da vida com Deus, sem Deus ou sem se decidir a respeito da existência ou não de um ser supremo! Pode-se até mesmo decidir que a vida não tem sentido e que é possível viver feliz assim.

Mas quando o cara falou que o cristianismo está além da psicologia e que a psicologia só quer enquadrar o sujeito para colocá-lo de volta na sociedade, igual a todo mundo, aí eu larguei pras cobras! Caí de pára-quedas na aula de um filósofo crente!

Não, não, não! Já passei bastante tempo discutindo e pensando sobre salvação e levando isso a sério. Não, obrigada. Prefiro ir para casa comer melão!


Ps- Aulas de filosofia devem estimular alguma parte do cérebro que ativem o apetite por frutas, porque ontem à noite, em outra dessas aulas, nos últimos minutos eu não via a hora de chegar em casa pra comer laranja lima!

quarta-feira, 19 de março de 2008

Metamorfose Século XXI


Encontrei uma barata na cozinha...


Ofereci a ela um disco dos Sex Pistols
Ofereci a ela uma batida de limão
Perguntei se ela gostava dos Beatles
Perguntei se ela era de escorpião
Ela disse: Sim! Vem "Kafka" comigo...
La cucaracha... La cucaracha...
Tome cuidado com a sandália de "burracha"

Inimigos do Rei, lembram?Sempre achei essa musiquinha divertida.Principalmente depois que entendi toda a letra. Eu era criança quando ela começou a tocar nas paradas e no programa da Xuxa (tenho certeza que eles se apresentavam no Xou da Xuxa) e ainda não sabia o que era Sex Pistols e entendia a letra toda errada. Bem, essa música foi inspirada no livro "Metamorfose", de Kafka, que li mês passado.Estou cheia de livros ainda não lidos, mas encontrei a Metamorfose, por 9 reais, na livraria. Já que é um clássico e sempre tive vontade de ler, comprei. E a curiosidade de conhecer esta história tão famosa me fez passá-la na frente de minhas outras prioridades de leitura. Assim como acontece com todos os clássicos, Metamorfose, de Kafka, se tornou um livro mais citado e comentado do que propriamente lido. Na verdade, é só falar em Kafka que a maioria das pessoas pensa logo em barata. A maioria das pessoas, com um mínimo de cultura, porque o resto não pensa em nada mesmo. Nunca ouviu falar.

A transformação de Gregor Sansa - Barata ou o quê?
Bem, para começar em momento algum do livro, Kafka deixa claro que o inseto no qual Gregor Sansa se transforma seja mesmo uma barata. Mas o bicho é tão nojento (só sente apetite por coisas podres e inspira asco na irmã, que cuida dele) que deve ser mesmo uma barata. O que fica claro é que ele é um inseto e não é bonito. Fica fora de cogitação que ele seja uma joaninha!

Leia antes das refeições se quiser emagrecer
Que os bulímicos e anoréxicos não leiam isso: mas A Metamorfose pode te fazer vomitar, se você ler após as refeições ou perder o apetite completamente, se resolver ler antes!
É de embrulhar o estômago. O livro conta a história de um cara, chamado Gregor Sansa que trabalha como caixeiro vajante para sustentar a família, é todo certinho e tem um chefe muito chato. Numa nada bela manhã, com viagem de trabalho marcada, ele acorda e descobre que não é mais gente. Já pensou, você acordar de manhã e descobrir que não consegue levantar, porque agora você tem um casco?
"Jogar a coberta para o lado foi bem simples; ele precisou apenas inspirar um pouco e ela caiu sozinha. Mas os passos seguintes se mostraram difíceis, sobretudo porque ele estava incomumente largo. Teria necessitado fazer uso dos braços e das pernas, a fim de se levantar; ao invés delas, no entanto, ele possuía apenas várias perninhas, que se movimentavam sem parar em todas as direções e que ele, além de tudo, não conseguia dominar. Quando queria dobrar uma delas, a mesma era a primeira a se esticar(...)"
Aos poucos, Gregor vai, forçadamente descobrindo no que havia se transformado (uma barata ou algo bem parecido). E aí as descrições de suas novas sensações são bem pormenorizadas. Por isso que minhas primeiras reações no início da leitura foram de nojo e embrulho no estômago. Não é exagero quando digo que evitei ler antes do almoço pra não perder a fome. O olfato de Gregor muda, sua voz vai se transformando em guinchos roucos e sua visão se adeqüa melhor a escuridão. Ele sente fome, mas não consegue beber o leite que a irmã dele traz numa tigela. Gregor só passa a se alimentar quando sua irmã leva várias opções de "pratos" para ele escolher. Dentre eles, legumes podres, pão bolorento e queijo velho e apodrecido, além, de comidas frescas e ideais para um ser humano. A escolha dele mostra que, sem dúvida, ele estava se afastando totalmente dos gostos normais de um ser humano:
"Rapidamente, e com os olhos lacrimejando de satisfação, ele devorou, um atrás do outro, o queijo, os legumes e o molho; as comidas frescas, ao contrário, não lhe agradavam; não conseguia suportar nem mesmo o cheiro delas."

Virou barata e faltou ao trabalho
Mas o mais bizarro do livro nem é o fato de um homem ter se transformado em uma barata. Mas o desespero que ele sente, não porque se transformou em um bicho asqueroso e nojento, mas porque teria que faltar ao trabalho e não teria como dar uma desculpa convincente. A preocupação de Sansa é com o trabalho e a família e todo o sentimento de culpa e a vergonha que ele passa a sentir com sua nova condição parece que já existiam antes e são apenas evidenciadas por sua metamorfose.

O paralelo
Claro que é possível fazer um paralelo da metamorfose de Gregor Sansa com qualquer metamorfose que sofremos na vida. Nem todas ruins, mas todas podem ser traumáticas. De crianças para adolescentes: pêlos crescendo, glândulas se tornando aparentes, desejos estranhos, cheiro diferente no corpo. De adolescentes para adultos: responsabilidades a mais, as bochechas fofas desaparecendo, as espinhas dando uma trégua... E, enfim, quando começamos a nos acostumar com nosso corpo e nosso rosto, mais transformação: rugas, flacidez, gordura que não desaparece tão fácil, cabelos brancos, expressão mais dura, bunda mais mole!

Era uma vez uma baratinha
Logo no início de minha leitura de A Metamorfose, ao comentar sobre isso com uma amiga, ela disse : dá uma pena da dona baratinha! Eu ainda estava na fase de sentir apenas nojo. Mas ao longo do livro, vai dando pena mesmo. Pena das baratas e de qualquer ser rejeitado pela sociedade. Vivendo em becos e tocas, em meio a sujeira, tentando adequar suas limitações a esse mundo hostil e fazer o melhor uso possível das vantagens que a natureza lhes deu. Sendo obrigadas a viver escondidas desses predadores, os humanos, que matam pelo simples desejo de não olhar para elas. Alvo de ódios e nojos, instintos assassinos e medos. Vida sofrida a da dona baratinha!
Não me admira ela ter aquele casco duro que faz "creck" quando a gente bate com o chinelo em cima.Na próxima vez que você encontrar uma barata na cozinha,ofereça a ela um pedaço de pudim!